Nossos nomes revelam nossa alma

Foi ensinado à menina de 1 ano e 8 meses que mora aqui em casa que os seus pais, assim como ela, assim como todo mundo, têm um nome.

Quando ela tá a fim de falar (né?), ela responde assim às seguintes perguntas:

– Filha, como é o nome do papai?

– Mossí (Maurício). Com direito a linguinha entre os dentes que é pra ficar mais lindinho.

– Filha, e o nome da mamãe, qual é?

– Mala.

E é isso.

 

O medo da cozinha de brinquedo

Nina ganhou uma cozinha de brinquedo; presente nosso. Mas não sem antes termos conversado um bocado sobre o que ele poderia representar para ela.

Antes de mais nada, falemos do óbvio: não, a igualdade não chegou à cozinha. Não nos enganemos e não enganemos nossas filhas. Nem nossos filhos. As mulheres ainda são maioria nesse espaço. E não necessariamente por uma escolha. Não falo dos chefs badalados, dos reality shows de panelas, nem do moço bonito na capa do livro na seção de culinária (e que ainda cozinha bem, veja que mundo injusto!). Falo da escolha pelo cardápio diário, de pensar num rango nutritivo para ajudar no crescimento da cria, e do inferno que é lavar aquele tanto de panela e prato e talher e copo quando tudo o que se quer é converser besteira até o sono vencer. São as mulheres, meus caros, que estão sozinhas na cozinha. Ainda há muito sutiã para ser incinerado.

Daí que a gente não queria, ao dar a cozinha mais lindinha para nossa meninucha, confiná-la à idéia de que aquela era uma “obrigação de menina”. Arrrggghhh! Nem as aspas me salvaram do peso que essa expressão tem. Que medo de passar uma mensagem machista para aquele coração ainda livre das discussões sobre como os gêneros parecem determinar, sem muita possibilidade de escaparmos, o caminho que devemos seguir.

Até que relaxamos um pouco quando passamos a olhar para os nossos próprios umbigos. Não seriam uns blocos de madeira organizados de maneira lúdica os responsáveis por dizer que, pejorativamente, aquele é o lugar dela. Até porque o pai dela também está na cozinha: o pai dela também limpa o chão que ela suja quando almoça; o pai dela também chora cortando cebola; o pai dela também prepara as refeições da família; o pai dela também se vira com as frutas que brotam do fundo da geladeira e o leite quase no fim para oferecer vitamina para a menina. Na cozinha de verdade aqui de casa tem menina e menino também. Então se o que ensina é o exemplo, não temos o que temer.

Sem falar que aqui na terra fria em que vivemos, quem cuida da cozinha é quem mora na casa. Cozinha não é aquele lugar distante em que pegamos um copo d’água, mas um espaço que serve para a intimidade dos moradores; onde há trabalho, gratidão pelo alimento à disposição e um convite para se jogar conversa fora. Ou seja, a paixão pelo visual da cozinha de brinquedo, que nos tomou primeiramente, transformou-se numa forma de permitir a dona moça que imitasse a mamãe (e o papai!) num ambiente do tamanho dela, sem enormes portas de armários opressores, sem facas afiadas ou panelas fumegantes. Aquele é o lugar dela também. Sem insultos.

“Mas e se Nina fosse um menino, vocês comprariam uma cozinha para ele?” Quero acreditar que sim.

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)

A menina quer calçar as próprias meias

Cada vez que um par de meias aparece em sua frente, ela tenta calçá-los. T-o-d-a-s as vezes. Cada uma delas.

Tem sido assim nas últimas semanas. Não importa o par, não importa nem se aquelas meias formam um par, não importa se estão limpas, não importa se vamos sair, não importa se precisa. As meias estão acolá, os pés ali, ela sente a necessidade de uni-los. Imita o gesto com perfeição, posiciona os pés corretamente, mas não consegue calçar-se. A tarefa almejada exige uma complexidade na organizacão dos gestos que ela parece ainda não ter.

Mas ela não se irrita.

Ela não se acanha.

Como se munida da certeza de que um dia vai saber fazer aquilo. Ou melhor, de que já sabe, mas ainda não dá. E tudo bem.

Observando-a, entendo que saber calçar as meias é parte de quem ela é, parte das insondáveis sabedorias latentes que ela carrega, mas ainda não pode expressar. Porque sim. Porque é assim. Porque leva tempo.

Eu fico próxima, pronta para ajudá-la a cobrir os pés ou consolá-la se ela ficar chateada, mas ela nunca precisou. Ao ver que ainda não dá, asfata-se pacificamente das meias e vai procurar outra coisa para fazer. E se for hora de sair de meias, ela estende os pés em minha direção. Sem ressentimento pelo que não foi.

Enquanto isso, minha filha, deixa que a mamãe calça você.

Profanação musical ou o efeito reverso

De umas semanas para cá, dona moça, que dormia por volta das 19h30, resolveu esticar a folia até às 21h30/22h, o que, para dois seres humanos triturados pela rotina – também conhecidos como seus pais – é muito tarde. Cansados, mal humorados de sono e com olheiras evidentes, resolvemos pensar em maneiras de voltarmos ao horário anterior de sono da pequena. Sabemos que ainda não esgotamos as alternativas para tentar fazê-la dormir mais cedo, mas já tem rolado um certo desânimo porque o que tentamos não vem dando certo.

Essa semana apelamos para a música. Possuídos pelo espírito do pedantismo, decidimos colocar música erudita à noite. Bach, aquele fofo, foi o escolhido para acalmar o sistema nervoso daquele serzinho cheio de energia. Não funfou. Foi ligar o som e Nina começou a bater palmas, agitar os braços e rebolar. Pois é, minha filha tem a capacidade de transformar uma obra clássica refinadíssima num show do É o Tchan.

Atônitos, mas ainda confiantes de que a música pudesse ter um efeito benéfico sobre aquela criatura acesa, liguei meu computador e cliquei no link que um conhecido tinha me mandado. Nele, a Ave Maria de Gounod cantada em alemão (falei que estávamos pedantes esse dia). Eu pensei: nessa Deus vai me ajudar, né? Apertei o play e Nina começou a banguear. B-a-n-g-u-e-a-r. Sabe galerinha sacudindo a cabeleira em show de metal? Tire a cabeleira, jogue uma Ave Maria de trilha e visualize um ser humano de pouco mais de 80 cm agitando a cabeça.

Ah! Quer saber? Ela que durma na hora em que quiser. Chega de profanação musical.

 

 

Mamãe-bebê-macaco

O que mais me fascinou no primeiro ano da relação mãe-e-filho foi justamente essa hifenização do laço, por assim dizer. Depois de tudo o que vivi, defendo que as palavras “mãe” e “filho” sejam escritas assim mesmo, grudadinhas, porque, afinal, os dois são mesmo um, sobretudo no primeiro ano da fase pós-barriga.

Aqui em casa, dona moça está se encaminhando para os 18 meses, ou seja, ainda guarda muita coisa do nenê de 1 ano, mas já flerta com as descobertas imensas de uma criança de 2. Isso quer dizer que, bem devagarinho, ela tem dado novos significados a esses hífens que nos unem. E eu tenho achado isso uma delícia. Quer dizer, em partes. Vocês vão entender.

Muitos acontecimentos têm me feito perceber essa mudança afetivo-gramatical (a pessoa tá gamada no hífen hoje), mas dois, que aconteceram no mesmo dia, são emblemáticos. Num, eu sou ela. Noutro, eu sou eu. Bem…

Dia desses, olhava as fotos dela recém-nascida (quem nunca?), matando a saudade daquela coisica deliciosamente molenga que há pouco havia saído de mim. Lá estava minha pinduquinha tão frágil e vulnerável em close na tela do laptop, quando sua versão caminhante se aproxima, vê a foto, aponta para a imagem e diz: “mamã”. Nessa hora eu morri e ressucitei umas 500 vezes de amor. Meu coração acelerou, perdi o fôlego, a pressão subiu. Foi coisa, viu? Lindeza de momento! A minha menininha olhava para si e me via. Nossos hífens são de amor legítimo, ninguém tira. Não a corrigi. Aliás, como corrigir quem está certo? Era eu na foto. Claro!

Ainda tremendo diante do computador, continuei vendo mais fotos da minha linduchita versão poucos dias fora do útero, enquanto a menininha-nenê já tinha se mudado para outro canto da casa e mexia aqui e acolá. Cinco minutos depois, ela me pede que leia um dos seus livros preferidos, que mostra uma série de macacos a fim de familiarizar os mini-leitores (hífens, uma tara) com diversas texturas. E lá vamos nós folheando e alisando o livro, vemos o macaco com o rabo muito aveludado, com as orelhas muito macias, com os pés muito delicados, com a barriga muito fofinha… Até que chegamos ao macaco com as sobrancelhas muito peludas. No que Nina aponta e diz: “mamã”.

Olhe, o negócio foi tão traumático que até hoje não tive coragem de marcar a depilação.

Falar com estranhos, que lindo!

Sempre que neva e eu preciso sair com Nina para algum lugar por perto, uso um meio de transporte relativamente comum por aqui essa época do ano: trenó. Mas deixa eu explicar: é para uso exclusivo das crianças (fuén!). Triste, né? Aqui na cidade, pelo menos, eu  nunca vi nenhum adulto ser puxado por trenó. Uma pena porque eu ia a-m-a-r! Pensa na delícia?! Um dia ainda faço uma zorra dessas!

Dia desses, voltando do supermercado cumprindo a função de husky siberiano particular de minha filha, eu tinha a corda do trenó numa das mãos e o saco com as compras na outra. A pequena ia se divertindo horrores com a neve no chão, enquanto eu lutava contra as montanhas de gelo nas esquinas, a luva que insistia em se enroscar na sacola quase derrubando as compras e os flocos de neve que elegeram meus olhos como alvo único no mundo.

Tomada pelo mau humor, reclamando em voz alta com a Natureza pela demora da chegada da primavera e arrependida de ter imigrado (apenas!), tive minha atenção interrompida por um senhor de barba grisalha gritando do outro lado da rua: “que lindo!”

Não dei muita bola porque achei que, assim como eu, ele estava simplesmente falando sozinho no meio da rua (normal, né, gente? Todo mundo faz isso. Né?????????????????) e segui o meu caminho.

Até que ele mudou seu rumo, andou até mim e disse:

“Desculpa, senhora, mas, ao ver uma cena dessas, não posso deixar de comentar como ela é linda! Uma mãe e sua filha no meio da neve, usando trenó… Ah! Que lindo! Vocês estão lindas! Tenha certeza de que sua filha vai se lembrar desses momentos com muita alegria. Esses passeios de trenó vão marcar a memória dela, ela vai lembrar da infância feliz que teve. Ao ver vocês, lembrei de como meus filhos e eu nos divertíamos quando andava de trenó com eles. Olha, eu tenho três filhos, o meu bebê mais novo tem 30 anos, e eu não me esqueço desse sentimento, apesar de fazer tanto tempo.”

Eu ouvia tudo aquilo sorrindo o que fez com que os flocos de neve desviassem dos meus olhos e passassem a gelar as minhas gengivas. Quando ele terminou de falar, agradeci imensamente por ele ter parado para me dizer todas aquelas coisas tão bonitas. “O senhor me fez ganhar o dia!”

Findada a conversa, eu estava curada do mau humor e cada um foi seguindo seu caminho. Mas, de longe, ainda nos olhávamos. Ele colocava as mãos no peito, eu sorria; ele sorria, eu sorria; ele gritava “que lindo!”, eu sorria…

Quando percebemos que as esquinas finalmente nos afastariam por completo, trocamos desejos de felicidades para nossas famílias e jogamos beijos no ar.

Ele tinha razão: “que lindo!

Neve, frio, caos e mesmo assim lindo!

Para 2013: adoção de mim mesma

Apesar de gostar de dias e datas que marcam o fim ou início de ciclos, a exemplo do primeiro dia do mês, aniversário, segunda-feira (tá, mentira!), eu nunca fui de fazer resoluções para o ano novo. Quer dizer, durante a longíqua era em que fui adolescente até cheguei a fazer. Mas como sempre era tomada por uma preguiça eterna pouco tempo após o dia 1° de janeiro, resolvi abolir o ritual.

Mas esse ano é diferente. Rá!

Eu não vou literalmente fazer uma lista porque realmente não precisa, já que as idéias estão muito claras na minha cabeça. Aliás, cristalinas. Santa nitidez! Esse conjunto de intenções (observe que o negócio tá tão sério que até a linguagem lembra planejamento estratégico de firma) está submetido a um pensamento central que rege o todo. Pensamento esse que partilho aqui no blog porque tem tudo a ver com a temática desse espaço

Eu resolvi me adotar.

Ridículo; brega; cafona; podre; trecho de livro de auto-ajuda; cala boca, Camila; não acredito que você falou isso…

Concordo com tudo. Mas é verdade. Desculpaê!

Ah não! Que horror, nunca mais volto nesse blog, por que o fim do ano só deixa as pessoas piegas e sem freio para falar as piores idiotices, por que o mundo não acabou…?

Continuo concordando. Mas é isso mesmo.

Eu resolvi me adotar. Ser minha mãe.

Me amar como amo Nina (gente, plano de ano novo tem de ser megalomaníaco), cuidar de mim como cuido de Nina, aparar as minhas arestas como tento aparar as de Nina, ser condescendente com as minhas limitações como sou com as de Nina, ser firme ao tentar corrigir certos erros meus como sou ao fazer o mesmo com Nina e por aí vai.

O bom do amor materno é que ele não precisa vir da mãe. Senão ser filho de uma louca, ter sido abandonado (em vários níveis) ou ser órfão seria uma condenação à infelicidade para todo o sempre. E por mais dura que seja para o indivíduo a repercussão de uma relação complicada com sua mãe, todas as histórias lindas e fortes de superação desse caos que testemunhei – ou me contaram – me fazem achar que o amor materno é uma energia, que, de tão leve, flutua por toda a parte, esperando para ser capturada por quem se sentir no direito de tomá-la pela mão. E, sendo amor de mãe, é abundante. Nunca faltará para quem tiver necessidade.

E que fique claro, mesmo gente que é filho de uma super mãe ou que não é mãe pode usufruir dessa energia! Porque o amor materno, aqui traduzido como “cuidar de si como se cuidaria de um filho” é um estado de espírito, uma necessidade que se impõe mais ou menos a depender da história de cada um, um desejo profundo de se colocar no colo e seguir em segurança.

Feliz 2013!

Sapato, uma palavra com os dias contados

- Filha, fala “sapato”.

– Tchuá!

– “Sapato”, filha.

– Tchuá.

– Sa-pa-to.

– Tchuá.

 

O doce marketing da indústria alimentícia

Num encontro informal entre mães com filhos da mesma idade da minha, conversávamos sobre diversos assuntos (todos girando em torno das crianças, obviamente, né?) até que chegamos à alimentação. Num dado momento, comentei que a minha cria adora iogurte (natural integral) com frutas e mesmo puro. Conversa vai conversa vem, citei os petits suisses. Tá ligado em petit suisse, né? Aquela paradinha que todo mundo acha que é iogurte, mas não é, e que andavam dizendo que valia por um bifinho? Então! É esse. Aproveita para se informar melhor sobre ele nesse texto produzido por Thais Ventura, do blog “As delícias do Dudu”.

Sem ser a chata desagradável que causa constrangimento geral, falei que nunca compramos esse produto aqui em casa porque, apesar da versão local não ter conservantes ou corantes, a quantidade de açúcar era muito alta, muito acima da recomendada para a idade dela blá blá blá. As outras mães, super educadas, ouviram a minha ladainha e, quando finalmente me calei, retrucaram quase num coro ensaiadíssimo, apesar do improviso (foi lindo, gente! Só vocês vendo!):

“Não se preocupe! Pode dar. É FEITO ESPECIALMENTE PRA CRIANÇA”

Me segurei para não soltar uma piadinha infame (“é feito à base de leite materno? Ehhehe”), mas fiquei com medo de ser completamente excluída da conversa e me limitei a dar um sorriso amarelo e soltar um “ah tá”.

Voltei para casa abismada com o que aconteceu. Não pelo fato das mães darem petit suisse aos seus filhos. Não mesmo! Espero também que elas não me odeiem por dar iogurte azedo à minha. Cada casa com seus hábitos e o diálogo é sempre bem vindo. O que me deixou assombrada foi o poder do marketing sobre as nossas decisões. “Nossas” mesmo; euzinha incluída. E nessa hora me lembrei tanto desse texto de um outro blog que adoro, o “Infância livre de consumismo”, escrito por outra Thais, a Vinha.

Bom, a tal frase dita em coro continuava ecoando na minha cabeça. E eu só conseguia pensar em como a indústria alimentícia se aproveita da inclinação do paladar infantil para os sabores mais adocicados, cria um produto transbordando de açúcar, adiciona uma vitamina aqui e outra ali, chama um publicitário para dizer que aquilo vai fortalecer os ________ (escolha uma parte do corpo) e pronto, a mãe consumidora do outro lado da revista e da TV acredita, compra e se sente mais aliviada porque Juninho não comeu os legumes, mas compensou comendo o petit suisse ~cheio de vitamina~.

Aí eu fui olhar o guia que é distribuído nos hospitais quando as mulheres grávidas se inscrevem para fazer o pré-natal para ver se eles falavam algo sobre alimentos com açúcar. É que as outras mães reagiram com tanta naturalidade à minha desconfiança aos petits suisses que eu fui ver se era um hábito local enraizado e eu, recém-chegada, estava dando uma bola fora. Respirei aliviada porque confirmei na seção que dá conta da alimentação que todas as sugestões são nutritivas, naturais, cósmicas, emocionantes. Findada a minha pesquisa, eu continuei folheando o guia e me deparei com uma publicidade (siiiiiiiiim, amiguinhos, vocês leram certinho: publicidade) do tal do petit suisse “feito especialmente para crianças”. Aiiiiiiiiii que decepção! Adivinha quem vai entrar em contato com a equipe responsável pelo guia e perguntar se eles acham que isso é bacana?

Para terminar essa conversa açucarada, eu vou responder uma pergunta que ninguém me fez: não, eu não tenho a pretensão de privar minha filha de alimentos que levem açúcar (aliás, aproveito para aplaudir de pé adultos e crianças que não o consomem. Vocês são pessoas evoluídas!). Mesmo o branco refinado, aquele maldito que foi criado no Sétimo Dia, quando Alah descansou. Mas eu entendo que está entre o básico dos básicos das minhas funções de mãe atentar para o que minha filha come e tentar ajudá-la na construção de um paladar que a faça crescer observando aquilo que a alimenta, com especial atenção aos seus dois primeiros anos de vida. Se eu não puder trabalhar em prol da saúde dela, estimulando-a a consumir mais o que é melhor para o seu corpo e mostrar que algumas delícias podem fazer parte da vida dela mas com moderação, é melhor entregar o cargo que me foi confiado.

Quatro motivos para apresentar Carmen Miranda às crianças

Desde que Nina nasceu, quando não estava babando de sono encostado na primeira superfície firme que visse pela frente, o pai cantava para ela uma canção que meus sogros ensinaram a ele quando pequeno. Os versos iniciais são assim: “Lá vem o seu Noé comandando o batalhão, o macaco vem sentado na corcunda do leão…” E a marchinha segue falando dos animais que teriam sido recrutados para dar uma volta na arca bíblica, com pausas para imitar os sons de alguns bichinhos. Achava uma graça, mas ficava arrasada porque nunca tinha ouvido esse troço na vida. Vocês conhecem, gente? Digam que não, por favor!

Daí que eu fui pesquisar sobre essa musiquinha e me deparei com uma gravação atribuída a Carmen Miranda no Youtube. Aprendi a letra e o assistia (ouvia, na verdade) sempre com Nina. Só que internet é arte do cão, né? Uma coisa leva à outra e eu fiquei um tempão vendo vídeos da bonita e fui me contagiando com aquela loucura colorida, as caras e bocas, as coreôs, os figurantes, as viradas de olho, o brilho nas roupas, as mãos frenéticas, o tutti-frutti na cabeça, as letras engraçadinhas e a ousadia de uma estrangeira em fazer conhecida uma republiqueta qualquer da América do Sul na onipotente Roliúde.

Foi então que me veio o clique: “Nina p-r-e-c-i-s-a ver isso”. Me senti na obrigação de compartilhar com ela toda essa lindeza esfuziante. Então aqui em casa é assim: quando só a música pode nos salvar, quando o tédio e o silêncio precisam ser quebrados, chacoalhamos e vibramos ao som da pequena notável. Mas não é só para levanter o astral e fazer a mamãe arfar que Maria do Carmo serve. Acontece que, por trás dos vídeos em que ela aparece, existem pelo menos quatro lições que dona Miranda oferece espontaneamente aos nossos filhos. Daquelas para levar para a vida toda. Me digam se não tô certa:

1)   Alimentação saudável: Essa é fácil! O nada discreto adereço que a moça ostenta na cabeça é uma clara alusão aos benefícios do consumo desenfreado de frutas. Lição aprendida: comer aquela variedade de alimentos lindos e nutritivos faz das pessoas seres sorridentes, dançantes e cantantes. Ah! E capazes de usar mini-blusas fazendo a inveja das recalcadas.

2)   Música divertida: as canções que madame Miranda interpreta são alegres e desenvolvem o ziriguidum, qualidade necessária para gastar a energia praticamente inesgotável dos nossos filhotes. Lição aprendida: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Aliás, tá aí outra pessoa necessária na vida: Dorival Caymmi, cupincha da musa desse post.

3)   Consideração ao sotaque alheio: Carmen Miranda falava inglês com um leve sotaque lusófono. Para as mamães expatriadas como eu, que falam o idioma do local onde seus filhos nasceram de uma forma charmosa (aham), a artista mostra que tudo bem. Lição aprendida: não precisa ter vergonha se a mamãe falar “véuri matchy” (very much).

4)   Respeito à diversidade sexual e de gênero: veja bem, fontes oficiais não confirmam, mas boto a unha quebrada do dedo mindinho da minha mão esquerda no fogo se, na verdade, Carmen Miranda não é a primeira travesti a fazer sucesso internacional. Lição aprendida: travestis merecem carinho, respeito e admiração como as pessoas de qualquer orientação sexual.

“Vinde a mim as criancinhas”