Profanação musical ou o efeito reverso

De umas semanas para cá, dona moça, que dormia por volta das 19h30, resolveu esticar a folia até às 21h30/22h, o que, para dois seres humanos triturados pela rotina – também conhecidos como seus pais – é muito tarde. Cansados, mal humorados de sono e com olheiras evidentes, resolvemos pensar em maneiras de voltarmos ao horário anterior de sono da pequena. Sabemos que ainda não esgotamos as alternativas para tentar fazê-la dormir mais cedo, mas já tem rolado um certo desânimo porque o que tentamos não vem dando certo.

Essa semana apelamos para a música. Possuídos pelo espírito do pedantismo, decidimos colocar música erudita à noite. Bach, aquele fofo, foi o escolhido para acalmar o sistema nervoso daquele serzinho cheio de energia. Não funfou. Foi ligar o som e Nina começou a bater palmas, agitar os braços e rebolar. Pois é, minha filha tem a capacidade de transformar uma obra clássica refinadíssima num show do É o Tchan.

Atônitos, mas ainda confiantes de que a música pudesse ter um efeito benéfico sobre aquela criatura acesa, liguei meu computador e cliquei no link que um conhecido tinha me mandado. Nele, a Ave Maria de Gounod cantada em alemão (falei que estávamos pedantes esse dia). Eu pensei: nessa Deus vai me ajudar, né? Apertei o play e Nina começou a banguear. B-a-n-g-u-e-a-r. Sabe galerinha sacudindo a cabeleira em show de metal? Tire a cabeleira, jogue uma Ave Maria de trilha e visualize um ser humano de pouco mais de 80 cm agitando a cabeça.

Ah! Quer saber? Ela que durma na hora em que quiser. Chega de profanação musical.

 

 

Quatro motivos para apresentar Carmen Miranda às crianças

Desde que Nina nasceu, quando não estava babando de sono encostado na primeira superfície firme que visse pela frente, o pai cantava para ela uma canção que meus sogros ensinaram a ele quando pequeno. Os versos iniciais são assim: “Lá vem o seu Noé comandando o batalhão, o macaco vem sentado na corcunda do leão…” E a marchinha segue falando dos animais que teriam sido recrutados para dar uma volta na arca bíblica, com pausas para imitar os sons de alguns bichinhos. Achava uma graça, mas ficava arrasada porque nunca tinha ouvido esse troço na vida. Vocês conhecem, gente? Digam que não, por favor!

Daí que eu fui pesquisar sobre essa musiquinha e me deparei com uma gravação atribuída a Carmen Miranda no Youtube. Aprendi a letra e o assistia (ouvia, na verdade) sempre com Nina. Só que internet é arte do cão, né? Uma coisa leva à outra e eu fiquei um tempão vendo vídeos da bonita e fui me contagiando com aquela loucura colorida, as caras e bocas, as coreôs, os figurantes, as viradas de olho, o brilho nas roupas, as mãos frenéticas, o tutti-frutti na cabeça, as letras engraçadinhas e a ousadia de uma estrangeira em fazer conhecida uma republiqueta qualquer da América do Sul na onipotente Roliúde.

Foi então que me veio o clique: “Nina p-r-e-c-i-s-a ver isso”. Me senti na obrigação de compartilhar com ela toda essa lindeza esfuziante. Então aqui em casa é assim: quando só a música pode nos salvar, quando o tédio e o silêncio precisam ser quebrados, chacoalhamos e vibramos ao som da pequena notável. Mas não é só para levanter o astral e fazer a mamãe arfar que Maria do Carmo serve. Acontece que, por trás dos vídeos em que ela aparece, existem pelo menos quatro lições que dona Miranda oferece espontaneamente aos nossos filhos. Daquelas para levar para a vida toda. Me digam se não tô certa:

1)   Alimentação saudável: Essa é fácil! O nada discreto adereço que a moça ostenta na cabeça é uma clara alusão aos benefícios do consumo desenfreado de frutas. Lição aprendida: comer aquela variedade de alimentos lindos e nutritivos faz das pessoas seres sorridentes, dançantes e cantantes. Ah! E capazes de usar mini-blusas fazendo a inveja das recalcadas.

2)   Música divertida: as canções que madame Miranda interpreta são alegres e desenvolvem o ziriguidum, qualidade necessária para gastar a energia praticamente inesgotável dos nossos filhotes. Lição aprendida: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Aliás, tá aí outra pessoa necessária na vida: Dorival Caymmi, cupincha da musa desse post.

3)   Consideração ao sotaque alheio: Carmen Miranda falava inglês com um leve sotaque lusófono. Para as mamães expatriadas como eu, que falam o idioma do local onde seus filhos nasceram de uma forma charmosa (aham), a artista mostra que tudo bem. Lição aprendida: não precisa ter vergonha se a mamãe falar “véuri matchy” (very much).

4)   Respeito à diversidade sexual e de gênero: veja bem, fontes oficiais não confirmam, mas boto a unha quebrada do dedo mindinho da minha mão esquerda no fogo se, na verdade, Carmen Miranda não é a primeira travesti a fazer sucesso internacional. Lição aprendida: travestis merecem carinho, respeito e admiração como as pessoas de qualquer orientação sexual.

“Vinde a mim as criancinhas”