Nossos nomes revelam nossa alma

Foi ensinado à menina de 1 ano e 8 meses que mora aqui em casa que os seus pais, assim como ela, assim como todo mundo, têm um nome.

Quando ela tá a fim de falar (né?), ela responde assim às seguintes perguntas:

– Filha, como é o nome do papai?

– Mossí (Maurício). Com direito a linguinha entre os dentes que é pra ficar mais lindinho.

– Filha, e o nome da mamãe, qual é?

– Mala.

E é isso.

 

Mamãe-bebê-macaco

O que mais me fascinou no primeiro ano da relação mãe-e-filho foi justamente essa hifenização do laço, por assim dizer. Depois de tudo o que vivi, defendo que as palavras “mãe” e “filho” sejam escritas assim mesmo, grudadinhas, porque, afinal, os dois são mesmo um, sobretudo no primeiro ano da fase pós-barriga.

Aqui em casa, dona moça está se encaminhando para os 18 meses, ou seja, ainda guarda muita coisa do nenê de 1 ano, mas já flerta com as descobertas imensas de uma criança de 2. Isso quer dizer que, bem devagarinho, ela tem dado novos significados a esses hífens que nos unem. E eu tenho achado isso uma delícia. Quer dizer, em partes. Vocês vão entender.

Muitos acontecimentos têm me feito perceber essa mudança afetivo-gramatical (a pessoa tá gamada no hífen hoje), mas dois, que aconteceram no mesmo dia, são emblemáticos. Num, eu sou ela. Noutro, eu sou eu. Bem…

Dia desses, olhava as fotos dela recém-nascida (quem nunca?), matando a saudade daquela coisica deliciosamente molenga que há pouco havia saído de mim. Lá estava minha pinduquinha tão frágil e vulnerável em close na tela do laptop, quando sua versão caminhante se aproxima, vê a foto, aponta para a imagem e diz: “mamã”. Nessa hora eu morri e ressucitei umas 500 vezes de amor. Meu coração acelerou, perdi o fôlego, a pressão subiu. Foi coisa, viu? Lindeza de momento! A minha menininha olhava para si e me via. Nossos hífens são de amor legítimo, ninguém tira. Não a corrigi. Aliás, como corrigir quem está certo? Era eu na foto. Claro!

Ainda tremendo diante do computador, continuei vendo mais fotos da minha linduchita versão poucos dias fora do útero, enquanto a menininha-nenê já tinha se mudado para outro canto da casa e mexia aqui e acolá. Cinco minutos depois, ela me pede que leia um dos seus livros preferidos, que mostra uma série de macacos a fim de familiarizar os mini-leitores (hífens, uma tara) com diversas texturas. E lá vamos nós folheando e alisando o livro, vemos o macaco com o rabo muito aveludado, com as orelhas muito macias, com os pés muito delicados, com a barriga muito fofinha… Até que chegamos ao macaco com as sobrancelhas muito peludas. No que Nina aponta e diz: “mamã”.

Olhe, o negócio foi tão traumático que até hoje não tive coragem de marcar a depilação.

Aprendendo a ser mãe com Michael Jackson

Michael Jackson foi um injustiçado! Sofreu horrores na mão do pai, levou pro túmulo a fama de pedófilo, entregou seu rostinho aos piores estagiários em cirurgia plástica e ainda foi acusado de ser um péssimo pai. Mas eu preciso confessar a vocês: Michael é um exemplo pra mim.

Analise comigo. Quando você vê essa foto, o que vem à sua mente?

"Nossa! Michael é um talibã! Coloca burca nos filhos com a desculpa de protegê-los dos paparazzi e sequestradores. Tirem dele a guarda dessas crianças!"

Que julgamento mais precipitado, minha gente. O que eu vejo? Vejo um pai cansado de limpar as golfadas de seus filhos com paninhos de boca bordados pela vovó, que se viu obrigado a usar panos maiores a fim de evitar jatos de azedume em qualquer um que se aproximasse de seus filhos. Ele estava, na verdade, prestando um serviço à sociedade; e você aí chamando o cara de freak. Que coisa feia! Agora, se as crianças dele ainda gorfavam nessa idade, aí já não sei dizer por quê. Sei lá, filho de artista é tudo excêntrico, né?

Eu só sei que o entendo e penso em aderir à moda porque, olha, não é fácil ser mãe de uma bebezica campeã na modalidade 100 metros rasos de gorfada.

Isso, Michael, não liga pra eles.

A falácia das canções de ninar

Como todas as mães, eu compus inúmeras canções de ninar. Sim, porque a gente não se contenta com as clássicas. E nem tô falando de excluir completamente as tenebrosas como “Boi da cara preta”. Acho que as composições maternas vêm da necessidade de incluir nelas o nome dos nossos filhos com o único objetivo de hipnotizá-los. Isso! Mães hipnotizam seus bebês. Ou tentam.

Daí que nessas canções personalizadas, os nomes dos nossos filhos estão sempre acompanhados de predicados como “fechar os olhinhos” e “contar carneirinhos” ou, se são 3 da manhã, vale um versinho mais contundente como “durma agora por tudo o que há de mais sagrado no quadrante alfa antes que eu enlouqueça e saia quebrando tudo por aí”, acompanhado de um sem fim de lágrimas (da mãe, obviamente).

Mas enquanto a pobre mulher usa toda a sua criatividade musical, insistindo numa afinação que simplesmente não possui, desafiando os princípios básicos da métrica e destruindo rimas, a criança está de olhos arregalados no berço, cheia de energia, com uma vontade louca de brincar. E, sim, a mãe adora brincar com aquele trocinho de pouco mais de 4 kg, mas no contrato mãe-bebê, essa atividade é terminantemente proibida em horários não convencionais.

Por que será que os nossos filhos sempre ignoram essa cláusula? Por que? POR QUEEEEEEEEEE?

Eu, a mulher-panda, tentando colocar Nina pra dormir.
Não há corretivo que dê jeito nessas olheiras!

 

A farsa do primeiro sorriso

Sua filha tem menos de 1 mês e ela sorriu. Você não esperava isso até, sabe-se lá, o 3° mês, talvez? Mas ela sorriu. Sim! Numa conversa com o pai. Vejam bem, não foi um sorriso fruto do total descontrole muscular próprio dos recém-nascidos. Foi a mais legítima interação pai-filha, cês não tão entendendo.

Depois desse sorriso, nosso lar se encheu de amor. Os pais não acreditavam que ganharam (tá, o pai ganhou) esse presente maravilhoso, uma lembrança que nunca se apagará, uma demonstração de felicidade genuína, que vem da alma blá blá blá… Até que, dois dias depois, aquele mesmo sorriso de “interação legítima” é direcionado com mais entusiasmo ainda à manta laranja do sofá.