2 meses de Nina

Ou “Cadê o recém-nascido que tava aqui?”

Aquele trocinho pelancudinho e que pouco interagia sumiu. Puf! Desapareceu! Agora, a menininha que morou 41 semanas e 1 dia na minha barriga sorri horrores, faz caras atentas quando o pai canta uma música nova e trava longos diálogos com os avós paternos, que vieram do Brasil encarar o inverno canadense só para conhecê-la.

Minha pequena mira os nossos olhos como se pudesse acessar a nossa alma. Como olha fundo a minha menina, desarmando o meu cansaço e solidificando uma intimidade cuja dimensão será sempre um assombro para mim. Amém!

Às vezes faz com as mãos gestos idênticos aos do avô materno; ao pai, às vezes, lembra o irmão mais velho; para a avó materna, às vezes, vem a imagem da minha cunhada quando nenê; eu, às vezes, vejo minha irmã… É assim… Às vezes vamos reconhecendo a mistura que ela carrega, a expressão daqueles que a antecederam. Um caldeirão genético que a faz única.

Obrigada, minha pinduquinha, pela confiança irrestrita. Prometo estar sempre atenta para lhe fazer jus.

O que dizer às crianças sobre o Natal se você não é religioso…

…e/ou tem questões mal resolvidas com Papai Noel?

Eu não cresci num ambiente religioso. Embora batizada na igreja católica quando bebê – muito mais pela simples repetição de uma tradição do que por convicção religiosa, creio eu –, nunca frequentei a santa igreja, nem fui (des)estimulada por meus pais a seguir este ou aquele credo. No entanto, mesmo não tendo uma religião herdada da família, sempre comemorei o Natal. Amava estar com meus primos, dormir tarde, comer coisas diferentes e, obviamente, receber presentes.

Aí a adolescência chegou e eu fiquei intragável questionadora. Continuava feliz em receber presentes (veja bem o golpe), mas ficava incomodada com esse negócio de usarem as populares festas pagãs do solstício de inverno do hemisfério norte e dizerem que foi a época em que Jesus nasceu. Nada contra o nazareno – pelo contrário, me amarro! –, mas não consegui me libertar dessa pulga atrás da orelha. Pra piorar, ainda tem o barbudo da Coca-cola, que não tem nada a ver com os pagãos nem com os cristãos.

De modos que na minha cabeça essa festa é assim: não me recuso a comemorar a data, ou seja, a estar na companhia de quem gosto (tem coisa melhor?), comer umas comidinhas caseiras e, quando tenho grana eventualmente, dar presentes. Aqui em casa o combinado entre marido e eu é que não compramos nada um pro outro. Sem choro, sem drama. A vida segue linda.

Mas aí eu pari, né? E, embora saiba que passamos pros filhos aquilo no que acreditamos, eu penso no convívio social. Então me vejo num dilema ridículo: serei eu a monstra a dizer a minha filha que Papai Noel non ecziste? Será que é tão nocivo assim deixá-la acreditar por um tempo que é possível que um homem dê conta de, numa única noite, entregar sozinho presentes para todas as crianças do mundo (exceto as miseráveis), a bordo de um trenó que voa puxado por renas? Ainda bem que não preciso pensar nisso esse ano.

De qualquer maneira, feliz natal, feliz sábado, que Jesus te abençoe, que Papai Noel te encha de presentes, sei lá!

1 mês de Nina

Há um mês encerrou-se a imensa espera de 41 semanas e 1 dia pra te ver, te tocar, te cheirar. Naquele 15 de novembro, você nascia, e sua mãe também. Bom, é verdade que você nasceu prontinha, enquanto sua mãe se forja aos poucos. Tenhamos paciência!

Devagarzinho, o furacão dos primeiros dias dá lugar a uma relação cada vez mais íntima entre nós duas. Vou entendendo melhor seus sinais, aprendendo a diferenciar seus chorinhos na tentativa de te deixar confortável.

E me derreto cada vez que você me olha nos olhos, como se me dissesse que lembra que, até pouco tempo atrás, era dentro da minha barriga que você morava. Mas aí você fica vesga, põe a língua pra fora cheia de leite, solta um pum daqueles bem altos tudoaomesmotempoagora e eu percebo que aquela troca de olhares foi mais emocionante pra mim do que pra você.

Daí que a nossa convivência fez a palavra amor ganhar um novo significado pra mim. Antes de você eu amei outras pessoas, claro. Felizmente! E ainda amo. Amo muito muita gente. E quero, sinceramente, que cada uma delas seja feliz. Mas com você é diferente; eu PRECISO que você seja feliz. Do contrário, eu mesma não serei.

Vai um pedaço de cheesecake aí?

Romance é pra quem pode

11 e meia da manhã de uma segunda-feira, exalando o azedume de sucessivas golfadas no ombro, ainda de pijama, com uma recém-nascida pendurada no sling e o cabelo d-a-q-u-e-l-e j-e-i-to, eu vou atender a porta. Um rapaz tem um arranjo de flores nas mãos e me pergunta se eu sou Camilá Nové. Resposta afirmativa, ele me entrega aquela lindeza. Leio o cartão: marido carinhoso mandou flores pelo nosso aniversário de casamento.

Eu tremo.

Pego o celular e ligo pra ele, aos prantos, pedindo perdão por ter esquecido do nosso dia. COMO ASSIM EU ESQUECI? É… Esqueci completamente. Esquecimento digno de Oscar. Mané Oscar! Esquecimento digno de um Nobel. É… Virei uma monstra insensível! A (falta de) rotina de Nina me absorveu de uma forma tal que eu simplesmente apaguei esse dia da minha mente.

Inconformada com o meu esquecimento, pergunto:

– (Gaguejando) Quando você lembrou da data?
– Semana passada.
– Mas por que você não falou comigo, já que lembrou?
– Ah! Por que eu queria fazer surpresa!

A conversa segue. Eu continuo chorando de culpa e de alegria pelo companheiro maravilhoso que tenho até que pergunto:

– Mas por que você deixou pra mandar as flores hoje?
– Ué! Porque é hoje o dia!

Diante dessa resposta, eu gargalho e quase acordo a bebê no sling. Do outro lado da linha, o marido, já acostumado à naturalidade com a qual sua mulher alterna entre “choro compulsivo-gargalhada histérica ad infinitum”, pergunta:

– Você tá rindo de quê?
– (Engasgando com a risada) É que nosso aniversário foi sábado da semana passada.