O exercício do amor e o acolhimento do “exagero”

Nos últimos dias, diversos amigos e conhecidos compartilharam nas redes sociais de que participo um artigo sobre como uma tal “hiper sensibilidade” das mulheres (essas são palavras minhas, não de Yashar Ali, o autor) é algo inerente a elas e jamais algo motivado pela maneira como as tratamos, as concebemos ou como lidamos com as nossas próprias emoções. Mulheres são loucas e exageradas por natureza, suas reações emocionais a “comentários bobos” são sempre desproporcionais porque, afinal, o cara estava “só brincando”, “nem é pra tanto” (palavras minhas de novo).

Yashar Ali segue argumentando sobre o ato de “gaslaitear” (a palavra é feia e o seu significado pior ainda) e como essa atitude serve para deixar as mulheres “minadas e postas de lado”, como o autor diz no texto. Aliás, se quiser dar uma pausa para ler o artigo que menciono, esse é um bom momento. É só clicar aqui.

Mas o que isso tem a ver com maternidade? Milhões de coisas, mas eu queria me concentrar em uma especificamente.

Por motivos óbvios, me interesso por conversas que falam de feminismo, de conquistas, representações, atrasos e preconceitos que envolvem gêneros. Mas a verdade é que, há quase dois anos maternando, o assunto crianças me suga de uma forma tal que as vejo em todos os lugares. Dito isso, enquanto ia lendo o artigo citado, inconscientemente substituía a palavra “mulher” por “criança”, e vi como nesse aspecto as pensamos de maneira tão parecida.

Crianças também são “loucas”, “emotivas”, “sensíveis demais”, “descontroladas” e portanto precisam ser “domadas”, “civilizadas”. Sim, crianças são como seres das cavernas (um beijo, Dr. Karp!), com um pé na irracionalidade e com o instinto à flor da pele. É difícil lidar com isso? Opa! Claro que é. Mas quer saber? Sem demagogia? Que bom que crianças são assim: sensíveis. Que bom que elas não têm vergonha (os muito pequenos, sobretudo) de demonstrar seu descontentamento com um choro que vem da alma ou a sua alegria com um grito que gente com mais de 12 anos nem lembra mais como é que se faz.

Essas emoções genuínas são uma das caras mais marcantes da infância, mas são consideradas algo ruim, menor, feio até, e que precisam ser corrigidas a qualquer preço, incluindo palmadas, castigos e ameaças; para não falar de abusos mais doloridos. Todas essas formas de abordagem da emoção infantil – que pode aparecer como um chorinho discreto no colo da mãe ou um chilique cinematográfico no meio do shopping – só ignoram a origem da manifestação. Tendo a achar que não funcionam. Talvez momentaneamente, e só.

Pela minha própria experiência pessoal (de antes de ser mãe) e por tudo o que tenho lido e conversado sobre o exercício da maternidade consciente e comprometida, aposto minhas fichas no jargão da psicologia que diz que sentimento precisa ser acolhido. Um filho que chora é uma pessoa que expressa uma dor: seja por conta da frustração por não poder brincar naquela hora, da sensação de abandono quando os pais o deixam na creche, do susto pela picada da agulha e por aí vai. E o que fazemos com aquela dor? Adultos e experientes, sabemos que ela vai passar, que existem coisas muito mais difíceis para se lidar na vida. Sim, é verdade: depois do banho a criança vai poder brincar de novo, o pai vai voltar para pegá-la no fim do dia e a injeção leva poucos minutos para ser esquecida. Mas por que ignorar a dificuldade pela qual a criança está passando naquela hora? Por que é preferível pedir-lhe que pare de chorar ou tentar distraí-la com uma conversa fiada, ao invés de abraçá-la, dizer que entende o que ela está sentindo e que vai ajudá-la a superar aquilo?

Por que a dor do outro precisa passar rápido? Por que o sofrimento alheio nos irrita tanto? Por que pimenta nos olhos dos outros é refresco? Por que a gente não age com empatia na maior parte das vezes? Por que choro de criança é sempre birra, falta de educação, manha? Por que não temos tempo de olhar com cuidado para aquela criatura que depende de nós para aprender a lidar com os seus próprios sentimentos? Por que, caramba?!

Eu gosto de achar que choro não é algo para ser engolido, mas para ser externado e entendido. Então, o papel de quem cuida de crianças é orientá-las a respeitar aquilo tudo que se sente, seja lá o que for, colocando para fora o sentimento e refletindo sobre o que se vê. Isso é parte essencial da imensidão de significados belos e fortes por trás da palavra educar. E tem mais: se nós, a quem é atribuído o tal do amor incondicional, não somos capazes de receber nossos filhos integralmente, com seus “dramas” e “exageros”, quem será?

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

Pela felicidade de se exercer a paternidade integralmente

É dia dos pais no Brasil (aqui comemora-se em junho) e eu só consigo pensar que ainda falta muito para que os homens sejam protagonistas na criação de seus filhos. Eu não tenho qualquer base científica para explicar profundamente porque as famílias ainda têm nas mães a principal (ou única) responsável por essa tarefa. Tenho minhas suspeitas, mas prefiro não falar delas nesse momento. Me limito a observar. E fico com a impressão de que haveria mais felicidade se não fosse assim.

Os homens estão lá, mas nem tanto. Nem vou entrar na seara de pais que abandonam as crianças ou os maltratam porque senão a conversa não teria fim. Eu falo de algo muito mais “leve”, corriqueiro e aceito. Falo dessas casas em que há papai-mamãe-bebê-cachorro-papagaio, mas o personagem papai é aquela figura distante, que só aparece como provedor ou o pacificador de conflitos que ele nem pôde testemunhar, bem no esquema “quando seu pai chegar, eu vou contar tudo e você vai ver só”. No máximo, o pai é aquele cara que fica olhando o bebê no berço para que a mãe possa tomar um banho rápido. Parece ser um perfil ultrapassado, mas ainda há muito homem com esse comportamento.

Todos sabemos que esse papel não é justo com as crianças nem com as mulheres, mas eu queria dizer que também não o acho justo com os homens. Ganha-se tanto nas trocas de fraldas, nos carinhos antes de dormir, na loucura que é brincar no parque, nos mergulhos no mar, no ensino do manejo da escova de dentes, no acolhimento nos momentos de mau humor e tristeza, na escolha do cardápio, nas reflexões sobre o papel da escola, na hora de desmontar o berço ou de preparar o feijão.

O pai protagonista, que, por favor, não é aquele que “me ajuda”, é o que participa da rotina da cria porque se sente responsável pela pessoa que colocou no mundo e entende que uma mãe que carrega os filhos sozinha fica exausta. Eu tendo a achar que esse pai que se preocupa em acertar, que está atento a como suas atitudes serão assimiladas pelos filhos e que entende que tudo mudou depois da chegada das crianças terá muito mais trabalho, muito menos tempo para si, mas uma sensação de dever cumprido que o preencherá profundamente.

Esse pai que se envolve verdadeiramente na vida dos pequenos está cultivando a própria felicidade, fruto da expressão diária do amor. Simples assim, como são todas as coisas complexas. Dito isso, desejo sinceramente aos homens que se permitem exercer a paternidade integralmente um dia muito feliz. Aos demais, um dia tão feliz quanto, com o bônus da reflexão sobre a força que a presença afetiva de um pai carrega.

O medo da cozinha de brinquedo

Nina ganhou uma cozinha de brinquedo; presente nosso. Mas não sem antes termos conversado um bocado sobre o que ele poderia representar para ela.

Antes de mais nada, falemos do óbvio: não, a igualdade não chegou à cozinha. Não nos enganemos e não enganemos nossas filhas. Nem nossos filhos. As mulheres ainda são maioria nesse espaço. E não necessariamente por uma escolha. Não falo dos chefs badalados, dos reality shows de panelas, nem do moço bonito na capa do livro na seção de culinária (e que ainda cozinha bem, veja que mundo injusto!). Falo da escolha pelo cardápio diário, de pensar num rango nutritivo para ajudar no crescimento da cria, e do inferno que é lavar aquele tanto de panela e prato e talher e copo quando tudo o que se quer é converser besteira até o sono vencer. São as mulheres, meus caros, que estão sozinhas na cozinha. Ainda há muito sutiã para ser incinerado.

Daí que a gente não queria, ao dar a cozinha mais lindinha para nossa meninucha, confiná-la à idéia de que aquela era uma “obrigação de menina”. Arrrggghhh! Nem as aspas me salvaram do peso que essa expressão tem. Que medo de passar uma mensagem machista para aquele coração ainda livre das discussões sobre como os gêneros parecem determinar, sem muita possibilidade de escaparmos, o caminho que devemos seguir.

Até que relaxamos um pouco quando passamos a olhar para os nossos próprios umbigos. Não seriam uns blocos de madeira organizados de maneira lúdica os responsáveis por dizer que, pejorativamente, aquele é o lugar dela. Até porque o pai dela também está na cozinha: o pai dela também limpa o chão que ela suja quando almoça; o pai dela também chora cortando cebola; o pai dela também prepara as refeições da família; o pai dela também se vira com as frutas que brotam do fundo da geladeira e o leite quase no fim para oferecer vitamina para a menina. Na cozinha de verdade aqui de casa tem menina e menino também. Então se o que ensina é o exemplo, não temos o que temer.

Sem falar que aqui na terra fria em que vivemos, quem cuida da cozinha é quem mora na casa. Cozinha não é aquele lugar distante em que pegamos um copo d’água, mas um espaço que serve para a intimidade dos moradores; onde há trabalho, gratidão pelo alimento à disposição e um convite para se jogar conversa fora. Ou seja, a paixão pelo visual da cozinha de brinquedo, que nos tomou primeiramente, transformou-se numa forma de permitir a dona moça que imitasse a mamãe (e o papai!) num ambiente do tamanho dela, sem enormes portas de armários opressores, sem facas afiadas ou panelas fumegantes. Aquele é o lugar dela também. Sem insultos.

“Mas e se Nina fosse um menino, vocês comprariam uma cozinha para ele?” Quero acreditar que sim.

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)

A menina quer calçar as próprias meias

Cada vez que um par de meias aparece em sua frente, ela tenta calçá-los. T-o-d-a-s as vezes. Cada uma delas.

Tem sido assim nas últimas semanas. Não importa o par, não importa nem se aquelas meias formam um par, não importa se estão limpas, não importa se vamos sair, não importa se precisa. As meias estão acolá, os pés ali, ela sente a necessidade de uni-los. Imita o gesto com perfeição, posiciona os pés corretamente, mas não consegue calçar-se. A tarefa almejada exige uma complexidade na organizacão dos gestos que ela parece ainda não ter.

Mas ela não se irrita.

Ela não se acanha.

Como se munida da certeza de que um dia vai saber fazer aquilo. Ou melhor, de que já sabe, mas ainda não dá. E tudo bem.

Observando-a, entendo que saber calçar as meias é parte de quem ela é, parte das insondáveis sabedorias latentes que ela carrega, mas ainda não pode expressar. Porque sim. Porque é assim. Porque leva tempo.

Eu fico próxima, pronta para ajudá-la a cobrir os pés ou consolá-la se ela ficar chateada, mas ela nunca precisou. Ao ver que ainda não dá, asfata-se pacificamente das meias e vai procurar outra coisa para fazer. E se for hora de sair de meias, ela estende os pés em minha direção. Sem ressentimento pelo que não foi.

Enquanto isso, minha filha, deixa que a mamãe calça você.

Para 2013: adoção de mim mesma

Apesar de gostar de dias e datas que marcam o fim ou início de ciclos, a exemplo do primeiro dia do mês, aniversário, segunda-feira (tá, mentira!), eu nunca fui de fazer resoluções para o ano novo. Quer dizer, durante a longíqua era em que fui adolescente até cheguei a fazer. Mas como sempre era tomada por uma preguiça eterna pouco tempo após o dia 1° de janeiro, resolvi abolir o ritual.

Mas esse ano é diferente. Rá!

Eu não vou literalmente fazer uma lista porque realmente não precisa, já que as idéias estão muito claras na minha cabeça. Aliás, cristalinas. Santa nitidez! Esse conjunto de intenções (observe que o negócio tá tão sério que até a linguagem lembra planejamento estratégico de firma) está submetido a um pensamento central que rege o todo. Pensamento esse que partilho aqui no blog porque tem tudo a ver com a temática desse espaço

Eu resolvi me adotar.

Ridículo; brega; cafona; podre; trecho de livro de auto-ajuda; cala boca, Camila; não acredito que você falou isso…

Concordo com tudo. Mas é verdade. Desculpaê!

Ah não! Que horror, nunca mais volto nesse blog, por que o fim do ano só deixa as pessoas piegas e sem freio para falar as piores idiotices, por que o mundo não acabou…?

Continuo concordando. Mas é isso mesmo.

Eu resolvi me adotar. Ser minha mãe.

Me amar como amo Nina (gente, plano de ano novo tem de ser megalomaníaco), cuidar de mim como cuido de Nina, aparar as minhas arestas como tento aparar as de Nina, ser condescendente com as minhas limitações como sou com as de Nina, ser firme ao tentar corrigir certos erros meus como sou ao fazer o mesmo com Nina e por aí vai.

O bom do amor materno é que ele não precisa vir da mãe. Senão ser filho de uma louca, ter sido abandonado (em vários níveis) ou ser órfão seria uma condenação à infelicidade para todo o sempre. E por mais dura que seja para o indivíduo a repercussão de uma relação complicada com sua mãe, todas as histórias lindas e fortes de superação desse caos que testemunhei – ou me contaram – me fazem achar que o amor materno é uma energia, que, de tão leve, flutua por toda a parte, esperando para ser capturada por quem se sentir no direito de tomá-la pela mão. E, sendo amor de mãe, é abundante. Nunca faltará para quem tiver necessidade.

E que fique claro, mesmo gente que é filho de uma super mãe ou que não é mãe pode usufruir dessa energia! Porque o amor materno, aqui traduzido como “cuidar de si como se cuidaria de um filho” é um estado de espírito, uma necessidade que se impõe mais ou menos a depender da história de cada um, um desejo profundo de se colocar no colo e seguir em segurança.

Feliz 2013!

O mesmo script para todo mundo (ou não)

Você vai avançando na casa dos 20 e o pessoal (o vasto leque de pessoas que inclui sua mãe e o estagiário aleatório da Contabilidade cujo nome você desconhece) começa a perguntar “cadê o namorado?”

[Eu nem vou entrar no quesito homossexualidade para que a conversa não fique ainda mais extensa, então fiquemos no mundo hetero, ok?]

Então as pessoas ao seu redor se preocupam horrores com a sua… é… felicidade conjugal. Não importa se você está alegre da vida aproveitando cada uma das delícias da solteirice. O que conta é o que o pessoal quer para você. Afinal, como ser feliz sem um homem do lado, não é, minha gente? E quem diz o contrário é recalcada.

Até que um dia, você, galinha solteira convicta, se apaixona de um jeito que precisa juntar seus trapinhos djá com aquela criatura. O pessoal muito mente aberta até aceita que vocês não casem assim preto no branco; morando sob o mesmo teto já tá bom demais, afinal o importante é ter um homem ao seu lado, lembra?

O relacionamento segue firme e inabalável. Vocês queimam as fotos dos ex,  adotam um cachorrinho e até fazem um perfil único com o nome dos dois no Orkut (sou vintage?). Tá tudo lindo, tá tudo grude, tá tudo amor, mas o pessoal já tá preocupado: “cadê o filho?”

Se você demorar muito (?), o pessoal vai falar que gravidez depois dos 35 anos é problema para o feto na certa, que casamento sem filho não se sustenta porque é muito solitário e que você só vai descobrir o que é o amor no dia em que parir. Se sua irmã mais nova teve filho, então, aí é que danou-se.

Aí você, que estava só lá vivendo sua vida, sem dar satisfações a ninguém, engravida quando bem quer. O povo então derrama lágrimas de alegria, gritando “aleluia! Aleluia! Fulano não é brocha e Beltrana não tem útero seco”.

Você está assinando os formulários para ter alta do hospital com seu filhote e o pessoal já pergunta “e quando vem o segundo?” 

Quatro anos depois, sob protestos do pessoal, que tanto avisou que a diferença de idade ideal entre os seus filhos deveria ser de dois anos, você engravida de novo. O exame de ultrassom mostra que é um outro menino. Você e o namorido comemoram! O pessoal, mal disfarçando a frustração (?), apressa-se em perguntar: “mas vocês vão tentar uma menina, né?”

Fim.

Se eu tivesse acordado de mau humor, ia usar o blog para me queixar (quem nunca?) de como o pessoal se mete na vida dos outros (meu mimimi mais recorrente nos últimos tempos) e faz de tudo para que você não seja capaz de escrever a sua própria história, pensando o mundo de outro jeito, tipo o seu. Mas estou borbulhando de endorfina, então digamos que esse texto foi só para externar a minha alegria em ver que existe tanta gente que parece intrometida, mas que, no fundo, tem só é um jeitinho todo especial de demonstrar que quer o seu bem.

[Sem ironia, eu j-u-r-o. É verdade! Por favor, acreditem! Só hoje! E digo mais: eu não sou esse poço de intolerância. É sério! Assim… Só com umas 3 ou 4 pessoas muito, muito próximas a mim. Do resto, eu aceito quase tudo!]

Intelecto e intuição na maternidade

Desde que minha filha nasceu, muita coisa bacana me foi dita sobre essa experiência, mas duas me parecem, hoje, as mais importantes. Uma foi: “o primeiro mês é o mais difícil, depois melhora” (como foi bom ouvir isso!). A outra: “siga sua intuição”.

Com relação a esse segundo conselho, eu ficava… como dizer? Não com o pé atrás, mas, sei lá, no fundo achava que tinha algum exagero romântico nisso aí. Como se as mães todas tivessem se unido para florear um pouco a maternidade, sabe? Felizmente eu estava enganada. Nesses 4 meses, o que mais fiz – além de adiar minha ida à depiladora – foi seguir a minha intuição. E tão intuitiva estava que nem percebia que estava usando ela, a tal da intuição. Ia lá e fazia. Pronto. Dava certo, dava errado, fazia assim, depois completamente assado e voilà: uma hora Nina e eu nos entendíamos como se eu sempre soubesse como fazer. Não sem lágrimas e ranger de gengivas, obviamente.

O outro lado dessa história é que eu sempre gostei de ler. Quando o assunto me interessa, opa!, tamos aí debruçada sobre mil livros, um arsenal de revistas, zilhões de páginas de internet, até e-mail com anexo em Power Point. E, olha, esse negócio de botar menino no mundo me interessa muito! Então, sim, fucei blogs (suas lindas!), me cadastrei em sites, comprei livro, me joguei! Confesso que li, padre. É, confesso. O verbo é esse. Porque parece até que é pecado. Parece que o bicho-mãe não pode fazer uso do seu intelecto para dar um alívio na novidade que é cuidar de uma criaturazinha. Como se os estudos e as reflexões de especialistas ou “simplesmente” de outras mães não fossem (extremamente) úteis e não pudessem aprimorar a tal da venerada intuição materna. Que não é lenda, é linda.

Eu não sei que mundo é esse em que as pessoas preferem resumir tudo a dicotomias, em que é preferível pensar as coisas como contrárias e, principalmente, excludentes, irreconciliáveis. Eu acho que as coisas se somam, depende de como você conduz a história. Um livro sobre o sono dos bebês, por exemplo, ou sobre infância e limites, nunca vai matar o meu estado intuitivo na hora de colocar Nina para dormir ou de enchê-la com os milhões de “nãos” e “sins” que ela vai ouvir da minha boca vida afora. Ao contrário, essas duas instâncias, creio eu, alimentam uma a outra. Ou será que a intuição não me impulsiona a ler tal coisa ao invés daquela outra? Ou será que aquilo que aquele cara disse sobre aquela coisa e que casa exatamente com o que eu sinto não me dá aquele empurrãozinho que eu precisava para fazer do jeito que eu já queria, mas vacilava, sabe-se lá por quê?

Minha mente e meu sexto sentido estão mergulhados na imperfeição até o pescoço, mas convivem em paz.

O que sinto nesse dia da mulher

Eu não sou muito boa com datas comemorativas em geral. Não costumo fazer festa no meu aniversário, tenho uma revoltinha adolescente com o Natal e agora, aparentemente, nem do dia do meu casamento eu lembro mais. E aí tem o Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje. Data necessária. Infelizmente.

Pequena, eu achava de uma babaquice atroz quando, no 8 de março, distribuía-se no comércio flores para as mulheres que passassem. Eu não entendia porque tinha um dia só para as elas. Não sei se Camilinha era um poço de recalque, já que ainda era muito nova para ser considerada mulher e, portanto, teria de esperar até o dia 12 de outubro (uma eternidade!) para ser lembrada pelo seu “status”. Notem que eu não questionava o porquê de haver o Dia das Crianças.

Fui crescendo e me contaram a história trágica das mulheres que morreram queimadas numa fábrica nos Estados Unidos. Depois eu descobri, salvo engano, que o incêndio nem foi no dia 8 de março. Mas isso não importa. Elas fizeram história e são merecidamente lembradas até hoje. Dito isso, minha relação com o Dia Internacional da Mulher era mais racional que afetiva. Eu entendia, mas não sentia. Sei lá, talvez porque eu nunca tenha me visto como mulher, mas como gente.

E aqui cabe uma explicação:  antes que você ache que eu estou fazendo algum autoelogio, vendendo uma autoimagem de ser evoluído, capaz de ultrapassar as barreiras de gênero, eu digo que essa percepção era fruto da mais pura sorte que tive na vida ou da minha total incapacidade de perceber que estava sendo maltratada por ser mulher. E digo mais: essa percepção tem mudado. Aos poucos essa ingenuidade tem dado lugar a uma maneira um pouco mais apurada de perceber a presença da mulher na sociedade. Na maioria dos casos ainda é assim: mulher é mulher e homem é homem. Mas mesmo essa visão um pouco mais sofisticada era mais pensada do que sentida.

Só que eu engravidei.

E engravidei de uma menina.

Pronto! Sem que eu tivesse escolhido, um oito de março profundo surgiu em mim a partir daquele coquetel de hormônios para que minha filha se fizesse. Mais uma vez foi a minha vida que fez isso por mim. É como se eu não tivesse nenhuma participação nisso. Tá, eu me entreguei, eu vivi a gestação o mais intensamente que pude, mas o mérito é daquelas 41 semanas, não exatamente meu. Até um batom vermelhão eu comprei nessa época; logo eu, que mal passo um gloss.

Eu me senti, pela primeira vez na vida, mulher. Que nada! Foi muito mais do que isso, eu me senti, pela primeira vez, unida a todas as mulheres do mundo. Todas elas. As que existiram, as que estão e as que virão. Aquelas das quais a gente se orgulha e aquelas que a gente despreza. As que ficaram em casa e as que queimaram sutiãs. As que amam homens e as que amam outras mulheres. As que sofrem e as que gozam. As que pariram muitos e as que não terão filhos. Eu poderia escrever parágrafos sobre mulheres em situações díspares só para dizer que nenhuma me escapou. Para mim, foi preciso viver um tempo com 2 úteros e 4 ovários para que todas elas passassem a me acompanhar de um jeito mais real, com empatia e admiração. E eu não consigo mais abandoná-las. Sorte a minha porque hoje eu sinto essa data.

Feliz dia intergalático da mulher!

Quem precisa de Freud quando se tem Oscar Wilde?

Há anos não leio um livro que não fuja das temáticas espiritualista, Ciências Humanas e maternidade. Daí que Nina nasceu e eu pensei: “agora é que danou-se!” Mas eis que me vejo tendo tempo de ler coisas além das atualizações dos meus amigos no Facebook. É bem verdade que o almoço não fica pronto, a vassoura fica encostada no canto e a cama desarrumada, mas pelo menos estou podendo me debruçar sobre clássicos sem os quais não sei como vivi todos esses anos.

Começo por “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Achei que o maior problema que esse livro me causaria – além de deixar minha pilha de roupa suja um Everest de algodão –, seria achar todas as pessoas do mundo indignas da minha admiração. É que todo mundo vira um tédio quando comparado ao cinismo fascinante de lord Henry (só amor por essa criatura!).

[Pra quem se apaixonou por um smurf, querer ser amiga do personagem de um livro é até um sinal de evolução, né?]

Mas aí no intervalo literário de hoje concedido por minha digníssima e golfântica filha, me deparo com esse trecho do livro: “Children begin by loving their parents; as they grow older they judge them; sometimes they forgive them.” Numa tradução livre pro português: “crianças começam por amar seus pais; à medida em que crescem, elas os julgam; às vezes, elas os perdoam.”

Parei no “às vezes”, que assombra em CAPS LOCK a minha mente.

Pôxa, Oscar, eu tava curtindo tanto seu livro...

O que dizer às crianças sobre o Natal se você não é religioso…

…e/ou tem questões mal resolvidas com Papai Noel?

Eu não cresci num ambiente religioso. Embora batizada na igreja católica quando bebê – muito mais pela simples repetição de uma tradição do que por convicção religiosa, creio eu –, nunca frequentei a santa igreja, nem fui (des)estimulada por meus pais a seguir este ou aquele credo. No entanto, mesmo não tendo uma religião herdada da família, sempre comemorei o Natal. Amava estar com meus primos, dormir tarde, comer coisas diferentes e, obviamente, receber presentes.

Aí a adolescência chegou e eu fiquei intragável questionadora. Continuava feliz em receber presentes (veja bem o golpe), mas ficava incomodada com esse negócio de usarem as populares festas pagãs do solstício de inverno do hemisfério norte e dizerem que foi a época em que Jesus nasceu. Nada contra o nazareno – pelo contrário, me amarro! –, mas não consegui me libertar dessa pulga atrás da orelha. Pra piorar, ainda tem o barbudo da Coca-cola, que não tem nada a ver com os pagãos nem com os cristãos.

De modos que na minha cabeça essa festa é assim: não me recuso a comemorar a data, ou seja, a estar na companhia de quem gosto (tem coisa melhor?), comer umas comidinhas caseiras e, quando tenho grana eventualmente, dar presentes. Aqui em casa o combinado entre marido e eu é que não compramos nada um pro outro. Sem choro, sem drama. A vida segue linda.

Mas aí eu pari, né? E, embora saiba que passamos pros filhos aquilo no que acreditamos, eu penso no convívio social. Então me vejo num dilema ridículo: serei eu a monstra a dizer a minha filha que Papai Noel non ecziste? Será que é tão nocivo assim deixá-la acreditar por um tempo que é possível que um homem dê conta de, numa única noite, entregar sozinho presentes para todas as crianças do mundo (exceto as miseráveis), a bordo de um trenó que voa puxado por renas? Ainda bem que não preciso pensar nisso esse ano.

De qualquer maneira, feliz natal, feliz sábado, que Jesus te abençoe, que Papai Noel te encha de presentes, sei lá!