Carta para Amy Sherman-Palladino

Montreal, 28 de agosto de 2015.

Querida Amy,

Eu sou só mais uma das milhões de fãs do programa que você criou. Eu amo aquele negócio lá. Eu lavo os pratos vendo Gilmore Girls, eu preparo as refeições vendo Gilmore Girls, eu dobro as roupas que tiro da secadora vendo Gilmore Girls. Minha casa basicamente tem algum nível de organização e higiene graças a Gilmore Girls. Só isso já bastaria para eu escrever esta carta para você. No entanto, há mais a dizer, Amy, muito mais. Acontece que essa não é só uma carta de agradecimento. Na verdade, eu quero lhe pedir algo. Não, a gente não se conhece. Sim, eu quero lhe fazer um pedido.

Eu ainda não tinha minhas filhas quando assisti a todas as temporadas pela primeira vez. Mas tinha minha irmã, que as viu comigo e, na minha cabeça, eu era Lorelai, e ela, Rory. Nós nunca conversamos sobre isso porque, né, que v-e-r-g-o-n-h-a, mas eu me sinto na obrigação de abrir meu coração para você, Amy. É que a cumplicidade infinita que unia mãe e filha no seu show me contagiava de maneira tal, que eu precisava reproduzir aquilo com alguém, nem que fosse na minha imaginação, e com minha irmã.

Muitos anos se passaram, eu pari duas delicinhas cremosas e voilà, sinto nas minhas vísceras distanciadas pelas gravidezes, que não vale à pena ser mãe-e-filha – mãe-e-filhaS, no meu caso – se não houver o mesmo nível de comprometimento mútuo que Lorelai e Rory tinham. É, Amy, você criou um padrão para o exercício da maternidade. Altíssimo, diga-se. Mas, quero acreditar, alcansável, mesmo para uma senhorinha confusa feito eu. Tenho batido muito a cabeça para fomentar aquele ambiente de amor e respeito que as duas tinham.

Não bastasse o exemplo do prazer que é viver em simbiose profunda, você ainda criou Stars Hollow. Covardia aquele lugar, hein? Eu, como os milhões de fãs do programa, também quero morar lá. Me comprometo a ir a todas as reuniões do município (quem em sã consciência perderia tais encontros?) e a ser voluntária em todas as quermesses, feiras e comemorações cívicas. Você tem a minha palavra, Amy! Oi? Não, pera… Acho que a confusão entre ficção e realidade atingiu um outro nível nesse parágrafo. Por favor, Amy, ignore-o.

Juro que logo chegarei ao motivo real desta carta, mas antes preciso dizer que… M-e-u-D-e-u-s! Como você criou Kirk? Sério! Olha! Melhor personagem da teledramaturgia interplanetária. Kirk é indescritível, indomável, impossível! Vou fazer mais uma confissão aqui, viu, Amy: eu até evito assistir qualquer outra coisa da qual o ator que fez Kirk participe. Não é por nada, não. Eu só não quero macular aquele rosto com qualquer outra personalidade fictícia. É que em perfeição a gente não mexe, só se deixa arrebatar.

Bom, chegou a hora de pedir aquele algo a você, lembra? É o seguinte: você fez um bem danado à humanidade colocando na tão desgastada televisão um amor incomparável entre duas mulheres. E aí reside um problema. Mas não pelo alto padrão criado porque, como já disse, eu realmente acredito que, com um empurrãozinho, dê para chegar bem perto daquele paraíso ali. Sim, eu sou uma boboca que acredita no amor, eu sei. O problema é que são duas mulheres (calma, migas feministas, deixem eu concluir o raciocínio).

São duas mulheres, Amy. Tá. Na primeira temporada Rory tem 16 anos, mas não podemos ignorar a maturidade da menina, que, forçando só um pouquinho a barra (me alivia nessa, vai?), pode muito bem já ser considerada adulta. De modos que o vazio deixado pela série sobre a infância de Rory é um dos grandes mistérios da vida. Mães de todo o mundo (tá, só eu por enquanto! Mas certamente outras me acompanharão nesse movimento) se perguntam como Lorelai lidou com a filha aos 2-3 anos para que, aos 16, elas vivessem daquela forma tão sublime.

Então, cara Amy, caso você concorde em dar continuidade ao programa (e eu sei que sempre aparece uma proposta aqui e ali), por favor, não aceite o caminho mais fácil de fazer uma sequência. Faça uma prequel (Senhor! Acabei de descobrir que tentaram aportuguesar esse termo como “prequência”. Estou em choque!). Fale sobre os primeiros anos de vida de Rory, Amy. Sério! Você tem um compromisso com a espécie humana. Amy, só você tem o poder de revelar o segredo que vai salvar famílias, que vai colocar sorrisos constantes nos rostos de mães cansadas, que vai fazer desse planeta uma encubadora de amor para toda a galáxia.

A nova etapa do programa pode se chamar “Gilmore Girls: The Toddler Years”. Por favor, Amy. Por favor. Eu nunca te pedi nada.

Com carinho, da sua fã,

Camila.

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!

A filha que imita os pais

Momento clássico da infância é quando a(o) filha(o) começa a usar as coisas da mãe e do pai. Abre os armários, mexe nas gavetas em busca de roupas, sapatos, bolsas, bijuterias, maquiagem…

Há tanta graça na criança que borrou o próprio rosto com batom, que fica ainda menor quando engolida pela camiseta do adulto ou que tropeça tentando equilibrar-se numa sandália de salto alto (opa! Essa sou eu).

A verdade é que aqui em casa dona moça tem nos imitado muito. Aí você pensa: “ah! Que bonitinho… Já imagino Nina com os anéis da mãe nos dedos ou usando os gorros do pai”.

Quem me dera. Assim sendo, teríamos fotos melhores dos primeiros anos de vida dela. O negócio da menina é pegar o primeiro papel/pano que vir pela frente, agachar-se e mandar ver na limpeza do chão.

 

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Afinal, é só o que se faz nessa casa cheia de glamour.

Treta (imaginária) no parque

Dia lindo de verão, coloquei a cria no carrinho e fui passear no parque. Chegando à área destinada às crianças pequenas, avistamos uma série de pitocos remelentos se revezando entre descer na escorregadeira e comer areia.

Minha filha ama o balanço e quer testar todos. Afinal, vai que esse voa mais alto que aquele? Ficamos nesse vai-e-vem até que do outro lado do parque, uma casinha com mesa e bancos lhe faz um convite irrecusável. Chega de se balançar.

Nina sobe, então, os dois degraus que a levam ao “imóvel”, e se depara com três meninas que já brincavam por lá. Uma com pouco mais de 1 ano, outra com seus 2 anos e meio e a mais velha que deve beirar os 4. As três estão sentadas e Nina as observa de pé.

Um menino, também passado de seus 3 anos, chega gritando e tenta sentar junto delas, no que é imediatamente advertido pela mais velha: “ei, você não pode sentar aqui. Se quiser sente lá do outro lado (num banquinho isolado)”. Ele questiona sem muita força, com ares de vencido: “por que?” “Porque está chovendo e eu estou protegendo a nossa casa”.

Eu fiquei com cara de “oi? Mas o bichinho não deveria poder entrar justamente porque está chovendo?”. Mas como aquilo pareceu fazer sentido para ambos, tanto que ele sentou longe e mudo ficou, eu tentei fingir que aquele diálogo foi normal. E, não, não estava chovendo.

Menino domado, a mais velha prossegue preparando uma panqueca. Cada vez que ela abaixava para pegar areia no chão (o ingrediente das panquecas), a de 2 anos e meio desfazia tudo, aos risos. Chateada, a cozinheira dizia: “não tem graça! Pare com isso! Você não tem direito de mexer na minha comida”.

Minutos depois, o menino se mexe de leve em seu banco (sei lá, talvez tivesse entrado muita areia na roupa e ele só estava tentando espanar o fiofó), no que a menina retruca secamente: “sente aí. Fique aí”. E o menino sentou.

Depois de muito observar a cena, Nina tenta mexer nas panquecas, sendo imediatamente repreendida pela cozinheira. Para que a terceira guerra mundial não fosse deflagrada num parque infantil na pacata Montreal, eu pego areia e folhas do chão, coloco na mesa e começo a brincar com a pinduca: “vamos, filha, vamos preparar uma omelete de espinafre para todos”.

Quando começamos a preparar tudo, as duas mais velhas retrucaram: “ah! Mas ela não pode cozinhar. Aqui é a NOSSA casa! Ela só vai brincar se a gente deixar”. Ao ouvir isso, confesso que mentalmente criei um diálogo com elas no qual dizia coisas maduras tipo: “oxe! Cês tão malucas, é? Se essa casa é mesmo de vocês, cadê a escritura? Cadê??????????? Aliás, minha filha, isso aqui nem casa é. Me poupe! Isso é um parque, par-que! De modos que o espaço é público e todo mundo pode entrar a hora que quiser. E essa bosta de panqueca que você tá fazendo tá um horror. Tá queimando, cê não tá vendo? Ninguém vai querer comer essa merda aí. Aliás, isso é areia, minha filha, areia, OK? E pára com esse negócio de ficar dando ordem em todo mundo. Que saco!”

Mas aí eu lembrei que era a única adulta ali (e pior: mãe!), que deveria agir como tal e apenas fui jogar bola na grama com minha filha, que nem se importou com o despejo.

Falar com estranhos, que lindo!

Sempre que neva e eu preciso sair com Nina para algum lugar por perto, uso um meio de transporte relativamente comum por aqui essa época do ano: trenó. Mas deixa eu explicar: é para uso exclusivo das crianças (fuén!). Triste, né? Aqui na cidade, pelo menos, eu  nunca vi nenhum adulto ser puxado por trenó. Uma pena porque eu ia a-m-a-r! Pensa na delícia?! Um dia ainda faço uma zorra dessas!

Dia desses, voltando do supermercado cumprindo a função de husky siberiano particular de minha filha, eu tinha a corda do trenó numa das mãos e o saco com as compras na outra. A pequena ia se divertindo horrores com a neve no chão, enquanto eu lutava contra as montanhas de gelo nas esquinas, a luva que insistia em se enroscar na sacola quase derrubando as compras e os flocos de neve que elegeram meus olhos como alvo único no mundo.

Tomada pelo mau humor, reclamando em voz alta com a Natureza pela demora da chegada da primavera e arrependida de ter imigrado (apenas!), tive minha atenção interrompida por um senhor de barba grisalha gritando do outro lado da rua: “que lindo!”

Não dei muita bola porque achei que, assim como eu, ele estava simplesmente falando sozinho no meio da rua (normal, né, gente? Todo mundo faz isso. Né?????????????????) e segui o meu caminho.

Até que ele mudou seu rumo, andou até mim e disse:

“Desculpa, senhora, mas, ao ver uma cena dessas, não posso deixar de comentar como ela é linda! Uma mãe e sua filha no meio da neve, usando trenó… Ah! Que lindo! Vocês estão lindas! Tenha certeza de que sua filha vai se lembrar desses momentos com muita alegria. Esses passeios de trenó vão marcar a memória dela, ela vai lembrar da infância feliz que teve. Ao ver vocês, lembrei de como meus filhos e eu nos divertíamos quando andava de trenó com eles. Olha, eu tenho três filhos, o meu bebê mais novo tem 30 anos, e eu não me esqueço desse sentimento, apesar de fazer tanto tempo.”

Eu ouvia tudo aquilo sorrindo o que fez com que os flocos de neve desviassem dos meus olhos e passassem a gelar as minhas gengivas. Quando ele terminou de falar, agradeci imensamente por ele ter parado para me dizer todas aquelas coisas tão bonitas. “O senhor me fez ganhar o dia!”

Findada a conversa, eu estava curada do mau humor e cada um foi seguindo seu caminho. Mas, de longe, ainda nos olhávamos. Ele colocava as mãos no peito, eu sorria; ele sorria, eu sorria; ele gritava “que lindo!”, eu sorria…

Quando percebemos que as esquinas finalmente nos afastariam por completo, trocamos desejos de felicidades para nossas famílias e jogamos beijos no ar.

Ele tinha razão: “que lindo!

Neve, frio, caos e mesmo assim lindo!

Quatro motivos para apresentar Carmen Miranda às crianças

Desde que Nina nasceu, quando não estava babando de sono encostado na primeira superfície firme que visse pela frente, o pai cantava para ela uma canção que meus sogros ensinaram a ele quando pequeno. Os versos iniciais são assim: “Lá vem o seu Noé comandando o batalhão, o macaco vem sentado na corcunda do leão…” E a marchinha segue falando dos animais que teriam sido recrutados para dar uma volta na arca bíblica, com pausas para imitar os sons de alguns bichinhos. Achava uma graça, mas ficava arrasada porque nunca tinha ouvido esse troço na vida. Vocês conhecem, gente? Digam que não, por favor!

Daí que eu fui pesquisar sobre essa musiquinha e me deparei com uma gravação atribuída a Carmen Miranda no Youtube. Aprendi a letra e o assistia (ouvia, na verdade) sempre com Nina. Só que internet é arte do cão, né? Uma coisa leva à outra e eu fiquei um tempão vendo vídeos da bonita e fui me contagiando com aquela loucura colorida, as caras e bocas, as coreôs, os figurantes, as viradas de olho, o brilho nas roupas, as mãos frenéticas, o tutti-frutti na cabeça, as letras engraçadinhas e a ousadia de uma estrangeira em fazer conhecida uma republiqueta qualquer da América do Sul na onipotente Roliúde.

Foi então que me veio o clique: “Nina p-r-e-c-i-s-a ver isso”. Me senti na obrigação de compartilhar com ela toda essa lindeza esfuziante. Então aqui em casa é assim: quando só a música pode nos salvar, quando o tédio e o silêncio precisam ser quebrados, chacoalhamos e vibramos ao som da pequena notável. Mas não é só para levanter o astral e fazer a mamãe arfar que Maria do Carmo serve. Acontece que, por trás dos vídeos em que ela aparece, existem pelo menos quatro lições que dona Miranda oferece espontaneamente aos nossos filhos. Daquelas para levar para a vida toda. Me digam se não tô certa:

1)   Alimentação saudável: Essa é fácil! O nada discreto adereço que a moça ostenta na cabeça é uma clara alusão aos benefícios do consumo desenfreado de frutas. Lição aprendida: comer aquela variedade de alimentos lindos e nutritivos faz das pessoas seres sorridentes, dançantes e cantantes. Ah! E capazes de usar mini-blusas fazendo a inveja das recalcadas.

2)   Música divertida: as canções que madame Miranda interpreta são alegres e desenvolvem o ziriguidum, qualidade necessária para gastar a energia praticamente inesgotável dos nossos filhotes. Lição aprendida: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Aliás, tá aí outra pessoa necessária na vida: Dorival Caymmi, cupincha da musa desse post.

3)   Consideração ao sotaque alheio: Carmen Miranda falava inglês com um leve sotaque lusófono. Para as mamães expatriadas como eu, que falam o idioma do local onde seus filhos nasceram de uma forma charmosa (aham), a artista mostra que tudo bem. Lição aprendida: não precisa ter vergonha se a mamãe falar “véuri matchy” (very much).

4)   Respeito à diversidade sexual e de gênero: veja bem, fontes oficiais não confirmam, mas boto a unha quebrada do dedo mindinho da minha mão esquerda no fogo se, na verdade, Carmen Miranda não é a primeira travesti a fazer sucesso internacional. Lição aprendida: travestis merecem carinho, respeito e admiração como as pessoas de qualquer orientação sexual.

“Vinde a mim as criancinhas”

Ser mãe é…

… calçar-se no escuro para não incomodar marido e filha com a luz e, ao chegar na academia, perceber que cada pé está com um tênis de par diferente.

Primeiro dia de Nina na creche, o horror

Essa semana Nina começou a frequentar a creche.

[Pausa dramática para que a mãe pegue fôlego]

Então esse é um post sobre dicas de como encontrar uma creche que agrade às mães; na qual o tratamento dedicado à criança seja, na medida do possível, personalizado; um ambiente capaz de ajudar no desenvolvimento de algumas habilidades dos bebês, mas sem a paranóia de criar pequenos gênios que virarão CEOs de grandes empresas que revolucionarão o mercado; um lugar em que as crianças aprenderão a compartilhar seus pertences, a dividir a atenção com outros adultos e a estarem tranquilas mesmo longe dos pais; um ambiente acolhedor, no qual os pequenos estarão seguros e com a auto-estima inabalável; um local onde apenas refeições orgânicas serão servidas e todas as necessidades afetivas de nossos filhos serão atendidas, certo?

Claro que não!

Esse post é pra falar de mim. Do meu pânico de passar tanto tempo longe da minha pequena, de deixá-la com adultos estranhos, acompanhada de crianças estranhas, num ambiente estranho, comendo um rango estranho, com brinquedos estranhos, fazendo coisas estranhas, ouvindo vozes estranhas, numa cidade estranha, num país estranho, em que se fala duas línguas estranhas, em que a primeira-ministra da província – aquela estranha – eleita ontem sofreu um atentado estranho… Aaaaaaiiiii que mundo estranho é esse em que nossos filhos não podem ficar conosco 24 horas por dia exceto quando a gente os quer bem longe???

Segunda aqui foi feriado do dia do trabalho (eu não disse que o país era estranho?), então o primeiro dia de Nina na creche foi ontem. Eu vinha tendo pesadelos acordada durante as minhas insônias desde que soube que havia vaga numa creche perto de casa. Veja bem, a menina não estava inscrita e a mãe nem conhecia o lugar. Só o fato de ter visto a lista das creches da cidade com vagas disponíveis, eu fui transportada para um mundo de terror, recheado de pedófilos, espancadores de menores e sádicos que deixam crianças chorando sozinhas sem o menor amparo e meladas de cocô.

De lá pra cá algumas semanas se passaram e eu me tranquilizei. Sério! Foi lindo! Me conformei com essa nova realidade, enumerando na minha mente e em monólogos intermináveis diante do pai da infante os benefícios de se ter um bebê numa creche. Mas feliz mesmo fiquei quando me entreguei com força ao poder terapêutico do cartão de crédito e saí para comprar roupas para que a menininha aqui de casa não passasse o dia de pijama na rua e fosse vítima de bullying aos 9 meses e meio de vida.

Finalmente entusiasmada e segura da decisão de matriculá-la numa creche, vamos as duas para o seu primeiro dia naquele lugar maravilhoso, onde crianças são queridas e bem tratadas apesar da ausência dos laços de sangue. Chegando lá, somos recebidas com um sorriso imenso pela proprietária/educadora da creche, que nos chama pelo nome. Fico feliz. Coloco seus pertences (roupa extra, filtro solar, creme contra assaduras, chapéu, fraldas etc.) no armário dedicado exclusivamente à minha menininha. Fico mais feliz. Converso com a proprietária/educadora sobre o tanto que Nina dormiu no início da manhã e o quanto comeu no mesmo período; ela diz que vai ser ótimo porque assim ela vai poder sair pra brincar no parquinho. Fico explodindo de tão feliz. Deixo meu pequeno tesouro de carne, osso e diamante no colo da proprietária/educadora e a pequerrucha fica serena. Não sei mais medir o quão feliz fiquei.

Estou prestes a ir embora cantando alguma canção sobre como a vida é boa até que abre-se a porta do salão onde está a turma da minha nenê (tchutchucos de 9 a 18 meses). Ouço gritos, sussurros, gemidos. É um ranger de dentes e gengivas sem fim. Pequenos seres humanos exalam angústia. A aura de sofrimento e sentimento de abandono é evidente. Parece que adentrei no umbral dos bebês. Uma coisa dantesca, uma coisa Divina Comédia. O horror! Lágrimas, babas, catarro…

Diante desse cenário, acho que faço uma cara tão assustada, que a proprietária/educadora me fita com olhos piedosos e diz: “é normal. É assim mesmo. Não se preocupe. Com o tempo e o cuidado dedicado a eles, eles se acostumam e terão prazer em vir pra cá”.

Ai, gente, duvido que esse momento chegue. Eles são tão indefesos, tão vulneráveis, tão pequenos…

... eles nem sabem o próprio nome.

 

 

 

ou como facilitar a

Nina em “O pião da casa própria”

Para ler ouvindo:

Colocar Nina para dormir é um exercício de paciência do qual ou sairei zen ou no ponto certo pra viver em sanatório.

Até poucas semanas atrás, deitávamos juntas na cama, eu conversava baixinho (porque desisti de contar histórias por enquanto), cantava uma canção de ninar, fazia carinho, e ela, muito calminha que estava, acabava adormecendo. Era lindo! Sabe aqueles momentos dos quais você tem certeza de que faz tudo certo e de que seu filho crescerá um adulto altruísta e feliz?

Mas ela fez seis meses e teima em fazer jus à sua nova idade. Então aquela hora de dormir, normalmente tão doce, virou a hora do furacão. O relógio acusa o avançar do tempo, o rostinho está vermelho, os olhinhos lacrimejantes coçam, e as orelhinhas também. Bingo! Até a mais atrapalhada das mães sabe que o nenê tá com sono.

Então vamos pra cama? Sim.

Aí você põe a menina de barriga pra cima e ela se vira de barriga pra baixo. Uma vez de barriga pra baixo, ela se vira de barriga pra cima. E de barriga pra baixo. E de barriga pra cima. E de barriga pra baixo. E de barriga pra cima. E seguimos assim até acabarem as reticências do mundo.

A mãe é a coadjuvante paspalha cuja única função é evitar que a menina do gira-gira infinito não caia da cama. O que não quer dizer que ela sempre consiga. Mas menino que não cai da cama não se cria, não é mesmo, minha gente?

Depois de uma boa meia hora causando inveja pra qualquer pessoa com labirintite, Nina fica de bruços, fecha os olhos e a respiração ofegante some. Oba! Por trás das olheiras, a mãe abre os olhos pra confirmar aquela certeza que seu coração já tem: bebê finalmente dormiu. Ao se aproximar daquele rostinho… TCHANAM!!!! Boca banguela escancarada como se risse da sua ingenuidade. Dá pra ouvir o “te enganei, mamãe” que ela me manda telepaticamente.

Mais uns minutos de gira-gira e ela dorme por si só. A mãe está acabada de sono, enganada por um ser de menos de 70 cm e se sentindo uma fracassada por não ter mérito algum no soninho da filha. Ela dormiu porque simplesmente cansou de girar. Mas não importa! O prêmio, que não é uma casa própria, vem mesmo assim. Uma casa alugada que já pode ser arrumada porque agora nenê deixa. Viva!

Pode pedir pra girar de novo?

Era uma vez o quê mesmo?

Aqui em casa temos tentado várias técnicas para colocar Nina para dormir. Não que ela dê lá muito trabalho para isso, mas é sempre bom uma ajudinha de dois adultos desesperados para que ela possa chapar a noite toda para que eles façam o mesmo.

Até pouco tempo atrás, quando ela começava a dar sinais de sono, era só ligar um aparelhinho que imitava os sons que ela ouvia no útero e bingo: bebê dormindo em questão de minutos. Depois que ela decidiu que gostoso mesmo era dormir de lado e não mais de barriga para cima, passamos para um jeito que envolvia papai respirando bem próximo ao ouvido dela e mamãe sacudindo-a levemente de um lado para o outro com a mão na fralda. Era batata!

Mas aí a menininha tem passado dias bem chatinha por conta da gengiva que coça e dói e o funga-funga carinhoso com direito a balancinho ritmado tem sua eficácia questionada. Aí eu pensei: “por que não contar historinhas para ela? Nunca é cedo, né?”

Eu não tinha nenhum livro em mãos, então acionei a minha memória infantil e resolvi contar a saga de Chapeuzinho Vermelho e sua vó que por pouco não foram devoradas por um lobo muito do mau. Como só lembrava do principal da aventura e Nina parecia precisar de uns bons minutos de embromação, fui caprichando nos detalhes imbecis, tipo: “ah… Na cesta da Chapeuzinho, havia cookies de amêndoas, bolo de cenoura com farinha de trigo integral blá blá blá”.

Nina estava concentradíssima, de olhos vidrados pré-sono. Do outro lado da cama, marido, solidário, fazia sinal de positivo com as mãos, como se elogiasse a nova estratégia. Aí fui chegando na parte em que Dona Chapeuzona avisa à filha do lobo mau e eu fui tendo dificuldade de lembrar o que acontecia na tal da floresta: 1. Chapeuzinho realmente se encontrou com o lobo? 2. O lobo apenas espreitou a doce menina? 3. Eles tiveram mais de um encontro na floresta até o fatídico dia em que ele deu o bote na avó? Sem falar que eu queria ensinar ao meu bebê de 5 meses que não há nada mais errado nesse mundo do que desobedecer a mãe. Nunca é cedo para se doutrinar os filhos, certo?

Só sei que no meio de tantas dúvidas, a minha Chapeuzinho do improviso chegava ao bosque feliz e cantante: “Eu vou, eu vou pra casa agora eu vou…” E meu marido, que estava em silêncio para não distrair Nina, caiu na gargalhada. Eu fiquei com uma enorme interrogação na cabeça, até que perguntei: “eu cantei a música errada, não foi?” E me achando espertona por ter percebido meu erro tão rápido, comentei: “Xi… Essa é dos Smurfs, né?”.

Moral da história: Eu preciso urgentemente de uma dose cavalar de ginkgo biloba.

Eu, cachorra

[Cachorra, a fêmea do cachorro, ok, amiguinhos? Até porque esse é um blog de família.]

Eu sempre faço as piores analogias. Mas para não cair no ridículo ao expor demais as curvas que a minha mente constroi, me limito a falar de um das associações que fiz, desde que engravidei, entre mim e as cachorras.

Quando a vida intrauterina de Nina foi avançando para o segundo semestre, a hora do parto me trazia uma enorme alegria,  bem como aqueles medos naturais de não suportar a dor, de não estar num “bom lugar” na hora em que as contrações começassem, de não ser capaz…

Mas aí fui lendo muito, conversando com outras mães e tudo foi ficando mais claro na minha cabeça. Só que ainda restava aquele medinho da novidade, que tentava ofuscar a felicidade que eu imaginava que seria a chegada de minha filha. Para driblar essa sombra, me inspirava em outras mulheres, ou melhor, em todas as mulheres. Me emocionava horrores pensando em todas elas, desde Eva, e como elas venceram seus próprios tropeços e nos fizeram 7 bilhões.

Era lindo! Mas depois eu mesma desmontava a minha história de amor por elas e temia.

Até que lembrei de Kelly, a cadela de um amigo.

Do alto do seu viralatismo, Kelly protegia eficazmente a casa e se derretia em meiguices por seus donos. Era um sonho.

Num domingo, cheguei na casa desse amigo, toquei a campainha e, como de costume, abri um sorriso esperando no portão os carinhos de Kelly e Jack, seu irmão e namorido. Mas naquela tarde, só Jack apareceu. Esbaforido, com o rabo baixo, o latido contido, um andar serpenteado… Meu coração apertou.

Depois de alguns minutos de nervoso nosso, meu amigo apareceu e deparou-se com o que o portão me impedia de ver. E exclamava: “meu Deus! Meu Deus!” “Abre logo esse portão!”, eu dizia.

Cadeado liberado, eu corri para o pátio para saber o que tinha acontecido. Jack me rodeava, feliz, como se tivesse se libertado do peso do mundo. Num imenso contraste à ansiedade do macho, deitadinha num canto, Kelly exalava paz amamentando os 13 cachorrinhos que pariu durante toda a manhã. Em silêncio.

Sozinha, ela, mãe de primeira viagem, já tinha comido as placentas e limpado cada um dos umbigos de seus pequenos. Isso sem ter lido um livro, sem ter recebido um conselho sequer nos comentários do seu blog ou sem ter conversado com sua mãe. Ela estava lá e fez tudo certo, irretocavelmente.

E desde que essa cena saltou do meu repertório de lembranças, eu nunca mais tive medo.

"Late que eu tô passando"