Primeiro dia de Nina na creche, o horror

Essa semana Nina começou a frequentar a creche.

[Pausa dramática para que a mãe pegue fôlego]

Então esse é um post sobre dicas de como encontrar uma creche que agrade às mães; na qual o tratamento dedicado à criança seja, na medida do possível, personalizado; um ambiente capaz de ajudar no desenvolvimento de algumas habilidades dos bebês, mas sem a paranóia de criar pequenos gênios que virarão CEOs de grandes empresas que revolucionarão o mercado; um lugar em que as crianças aprenderão a compartilhar seus pertences, a dividir a atenção com outros adultos e a estarem tranquilas mesmo longe dos pais; um ambiente acolhedor, no qual os pequenos estarão seguros e com a auto-estima inabalável; um local onde apenas refeições orgânicas serão servidas e todas as necessidades afetivas de nossos filhos serão atendidas, certo?

Claro que não!

Esse post é pra falar de mim. Do meu pânico de passar tanto tempo longe da minha pequena, de deixá-la com adultos estranhos, acompanhada de crianças estranhas, num ambiente estranho, comendo um rango estranho, com brinquedos estranhos, fazendo coisas estranhas, ouvindo vozes estranhas, numa cidade estranha, num país estranho, em que se fala duas línguas estranhas, em que a primeira-ministra da província – aquela estranha – eleita ontem sofreu um atentado estranho… Aaaaaaiiiii que mundo estranho é esse em que nossos filhos não podem ficar conosco 24 horas por dia exceto quando a gente os quer bem longe???

Segunda aqui foi feriado do dia do trabalho (eu não disse que o país era estranho?), então o primeiro dia de Nina na creche foi ontem. Eu vinha tendo pesadelos acordada durante as minhas insônias desde que soube que havia vaga numa creche perto de casa. Veja bem, a menina não estava inscrita e a mãe nem conhecia o lugar. Só o fato de ter visto a lista das creches da cidade com vagas disponíveis, eu fui transportada para um mundo de terror, recheado de pedófilos, espancadores de menores e sádicos que deixam crianças chorando sozinhas sem o menor amparo e meladas de cocô.

De lá pra cá algumas semanas se passaram e eu me tranquilizei. Sério! Foi lindo! Me conformei com essa nova realidade, enumerando na minha mente e em monólogos intermináveis diante do pai da infante os benefícios de se ter um bebê numa creche. Mas feliz mesmo fiquei quando me entreguei com força ao poder terapêutico do cartão de crédito e saí para comprar roupas para que a menininha aqui de casa não passasse o dia de pijama na rua e fosse vítima de bullying aos 9 meses e meio de vida.

Finalmente entusiasmada e segura da decisão de matriculá-la numa creche, vamos as duas para o seu primeiro dia naquele lugar maravilhoso, onde crianças são queridas e bem tratadas apesar da ausência dos laços de sangue. Chegando lá, somos recebidas com um sorriso imenso pela proprietária/educadora da creche, que nos chama pelo nome. Fico feliz. Coloco seus pertences (roupa extra, filtro solar, creme contra assaduras, chapéu, fraldas etc.) no armário dedicado exclusivamente à minha menininha. Fico mais feliz. Converso com a proprietária/educadora sobre o tanto que Nina dormiu no início da manhã e o quanto comeu no mesmo período; ela diz que vai ser ótimo porque assim ela vai poder sair pra brincar no parquinho. Fico explodindo de tão feliz. Deixo meu pequeno tesouro de carne, osso e diamante no colo da proprietária/educadora e a pequerrucha fica serena. Não sei mais medir o quão feliz fiquei.

Estou prestes a ir embora cantando alguma canção sobre como a vida é boa até que abre-se a porta do salão onde está a turma da minha nenê (tchutchucos de 9 a 18 meses). Ouço gritos, sussurros, gemidos. É um ranger de dentes e gengivas sem fim. Pequenos seres humanos exalam angústia. A aura de sofrimento e sentimento de abandono é evidente. Parece que adentrei no umbral dos bebês. Uma coisa dantesca, uma coisa Divina Comédia. O horror! Lágrimas, babas, catarro…

Diante desse cenário, acho que faço uma cara tão assustada, que a proprietária/educadora me fita com olhos piedosos e diz: “é normal. É assim mesmo. Não se preocupe. Com o tempo e o cuidado dedicado a eles, eles se acostumam e terão prazer em vir pra cá”.

Ai, gente, duvido que esse momento chegue. Eles são tão indefesos, tão vulneráveis, tão pequenos…

... eles nem sabem o próprio nome.

 

 

 

ou como facilitar a

Um bebê graduado

Eu jurava que ia conseguir escrever toda terça-feira sobre como foram as aulas para mães de primeira no posto de saúde aqui do bairro, mas não deu. Eu falei sobre o primeiro encontro aqui e sobre o segundo, aqui. Daí que no meio da terceira aula, eu já tinha um post prontinho na cabeça, com as informações que estava aprendendo e umas piadinhas idiotas que só minha mãe acharia graça (mais do que nunca, hoje entendo que a mãe gostar de algo que a gente faz não nos confere nenhum mérito!). Mas aí, no fim do papo, a enfermeira responsável disse: “olha, não deixem de vir na próxima semana, pois falaremos sobre técnicas para desengasgar o bebê. Espero vocês!” e sorriu.

Eu saí de lá já em p-â-n-i-c-o. Como assim engasgar? Isso nunca vai acontecer com filho meu. Repitam comigo: “isso nunca vai acontecer com filho meu!” Amém!

Veja bem, não é aquela engasgadinha com leite, suquinhos, água, saliva etc., não. A criatura ia falar daquela engasgada do mal, em que o ar não passa, e a criança sufoca. (Ai, gente, quero apagar esse parágrafo. Pensar numa coisa dessas dá calafrios…). Então foi isso, eu meio que traumatizei e não quis mais vir aqui falar nada.

Passadas 3 semanas, eu repensei e acho válido colocar aqui um link em português de como desengasgar bebês, caso alguma comida ou algum objeto fique preso na garganta. Mas, ó, juro que tô colocando isso aqui desejando que ninguém nesse mundo nunca, nunquinha precise usar: http://brasil.babycenter.com/baby/protecao/engasgo/

Saiba só por saber porque você nunca vai precisar usar, tá?

Na sequência veio uma outra aula meio hipocondríaca, sobre a farmacinha básica para quem tem filho pequeno. Eu não sou muito a fim de usar remédio, mas há momentos em que eles são realmente necessários, então melhor saber o que comprar. Uma dica que achei ótima e que toda mãe deve saber, mas só euzinha aqui, recém-chegada a esse status, não sabia e achei a descoberta do século foi o tipo de remédio para baixar a febre do bebê: supositório. Além de ter ação mais rápida (cerca de 20 minutos depois de aplicado, ao contrário dos 40 minutos das gotas), o supositório não foge (beijo para quem riu imaginando a cena). Mas para evitar que o supositório fuja (outro beijo para quem riu de novo), vale segurar as nádegas do bebê por uns cinco minutinhos para que o remédio não escape (é, eu ri mais uma vez). Pelo menos foi o que a enfermeira disse e eu achei bem coerente. Quem tiver outras dicas ou discordar desse negócio de supositório no bumbum que mamãe limpou, fique à vontade para compartilhar!

Hoje foi a última aula e fizemos um balanço do que vimos, tiramos algumas dúvidas, recebemos uma lista com lugares aqui do bairro para se fazer atividades, pagas ou gratuitas, com crianças de várias idades. E, por fim, ainda tivemos “solenidade de formatura” e tudo, com direito a chapéu de cartolina feito na hora pelas mães.

A número 1 da turma em chupação da própria mão.

Segundo dia de aula ou Nina, a aluna truqueira

Hoje foi o nosso segundo dia de aula no curso para mães de primeira viagem oferecido pelo posto de saúde do bairro (pra ler sobre a primeira aula, clique aqui). Como o encontro dura só uma hora e meia, os assuntos propostos pra cada dia não são aprofundados a ponto de você sair de lá se sentindo uma enciclopédia da primeira infância, mas já dão uma boa base pras mais perguntadeiras tipo eu interessadas.

O papo de hoje rolou em torno do desenvolvimento do bebê. Aquela conversa toda sobre quando nossas delicinhas começam a sorrir, rolar, ter dentes, engatinhar, comer sólidos, andar etc. É bem bacana poder antecipar na nossa imaginação o que nossos filhos estarão fazendo daqui 1, 2, 3 meses, mas o que vale é a máxima de que “cada criança se desenvolve de uma forma diferente”. E fim de papo.

A enfermeira também ensinou umas técnicas de massagem pra fazermos nas nossas crias. Pena que nessa hora tão gostosa Nina ficou de rango e preferiu cair de boca no leite a ser bezuntada. Aliás, é bem legal observar o comportamento de cada nenê durante as aulas.

Um dos meninos – uma graça! – é mais chorão. Observa tudo atentamente, mas prefere ficar sentadinho no colo da mãe a ser colocado no tapete, senão abre o berreiro. Outro menininho – troço! – é o mais quietinho; prematuro, participa de tudo, mas é mais delicadinho e exige um cadinho mais de cuidado. Uma das meninas, a mais velha da turma – o auge da gostosura do alto dos seus 5 meses – é a que mais interage nas brincadeiras e é usada como exemplo pra tudo. A outra coleguinha – linda de babar – não chora, sorri quando tem de sorrir, presta atenção quando tem de prestar atenção e seus cabelos imensos não despenteiam nem quando tira o gorro.

Já Nina é aquela aluna truqueira. É a primeira a chegar pra bater um papo sozinha com a monitora e ganhar moral porque cumpre os horários. Observa absolutamente tudo, fazendo a pobre mãe girar feito um peão pra que seus olhinhos registrem tudo o que está ao seu redor. Dá um risinho faceiro toda vez que falam com ela, mas é só a aula começar pra ela cair no sono, dormir pesado, chapadona!

Sabe aquela colega que é simpaticona com os professores, bróder da galera, mas que vive dormindo na sala de aula e te liga sempre dois dias antes da prova pedindo pra você levar suas anotações porque ela quer xerocar? Pois é.

Primeiro dia de aula de Nina

Pois é, minha gente. Criar filho na América do Norte tem dessas. Os pirralhos não chegam nem aos 3 meses e já vão pra escola. Hoje é dia de competição, bebê! Money, money, money.

Tá, é mentira; deixa eu desconstruir o sensacionalismo do título do post.

Recomençando…

Ontem, Nina me acompanhou na primeira aula para mães de primeira viagem. O curso é gratuito, dura seis semanas e é oferecido pela rede de saúde pública do Québec. Os temas são bem básicos. Exemplo: como identificar e atender as necessidades por trás dos chorinhos dos nossos filhos; as etapas do desenvolvimento da criança; a importância de se criar uma rotina; o que fazer no caso de febres, gripes, constipação etc. Nada que a gente não possa descobrir numa busca bem feita pela internet, é verdade. Ou consultando outras mães, obviamente!

Embora só tenha participado de um encontro até agora, acho que vale a pena fazer parte do grupo; menos pelo conteúdo apresentado pela enfermeira responsável, e mais pelo fato de estar em contato com outras mulheres na mesma situação que a minha. Isso significa estar ao lado de mães (e pais) com tantas olheiras dúvidas quanto eu, aprendendo com os erros e os acertos deles. Sem falar que é maravilhoso poder estar ao lado de outros adultos que entendem exatamente e, principalmente, não se incomodam com os choros e gritos dos nossos filhos.

No caso de uma sociedade como a canadense, cheia de imigrantes recém-chegados, esses cursos são ótimos pra nos ajudar a conhecer outras pessoas (quem sabe não sai uma amizade dali?) e fazer com que nos sintamos acolhidas num momento que pode ser de tanta vulnerabilidade pra algumas mulheres, que prefeririam estar ao lado de suas famílias em seus países de origem.

No fim de cada aula, ainda rolam umas musiquinhas infantis em inglês e francês, que euzinha aqui desconheço completamente. Ainda bem que nessa hora Nina dormiu e se poupou do constrangimento de me ver tentando pescar sílabas. Pra aprender que a mãe dela ainda vai fazê-la passar muuuita vergonha nessa vida nem precisou de curso. Menina prodígio!