A felicidade estampada e esfregada na cara

Dando um rolé hoje mais cedo com a pitica no canguru, encontrei uma conhecida que tem dois filhos da mesma idade das minhas meninas. Ela é loira, alta, magérrima, rica e francesa. Eu tô desempregada, numa crise profissional sem precedentes, me especializando em assustar crianças e idosos na rua com minhas olheiras, e prestes a revelar ao mundo que é possível, sim, sobreviver sem respirar, se disso depender a aparência menos desarmônica das banhas na minha barriga.

Ela me cumprimenta sorrindo:

– E aí? Flora tá bem?

– Tá, sim, tá ótima!

– Ela come bem?

– Nada! Coloco tirinhas de alimentos pra ela se servir, mas ela prefere esmagá-las e passá-las de uma mão pra outra, ainda não entendeu que deve colocar na boca.

– Faz como eu. Eu tô dando papinha de legume. Tá funcionando super bem.

– Eu tô tentando dar papinha de cereal, mas ela empurra com a língua. Quando algo finalmente toca a garganta, ela tem ânsia de vômito…

– Ah! Eu tenho muita sorte! Meu filho come super bem! Ele come muito de tudo o que eu ofereço… Mas e Flora? Tem dormido bem?

– Ela acorda pelo menos uma vez por noite. Às vezes, duas. E o seu bebê?

– Ai, ele dorme a noite t-o-d-a. E dorme sozinho. Eu coloco ele no berço às 20h e ele adormece por si só. Acorda às 5h, eu dou peito e, quinze minutos depois, o coloco no berço e ele só acorda às 8h. Olha que maravilha?!

Eu sorri meu melhor sorriso bufa, numa mistura de “que inveja!” e “onde foi que eu errei?”, e acho que uma lágrima ensaiou escorrer pelo meu rosto porque ela simplesmente parou de falar do filho dela.

– Então, tá. A gente se vê. Vamos marcar uma ida ao parque quando a neve toda derreter, viu?

– Claro!

Assim, parabéns pra ela, felicidades pra família dela, quero muito botar nossas crias pra brigarem brincarem no parque, mas, pôxa… Precisava ser tudo tão perfeito assim?

 

 

Mamãe-bebê-macaco

O que mais me fascinou no primeiro ano da relação mãe-e-filho foi justamente essa hifenização do laço, por assim dizer. Depois de tudo o que vivi, defendo que as palavras “mãe” e “filho” sejam escritas assim mesmo, grudadinhas, porque, afinal, os dois são mesmo um, sobretudo no primeiro ano da fase pós-barriga.

Aqui em casa, dona moça está se encaminhando para os 18 meses, ou seja, ainda guarda muita coisa do nenê de 1 ano, mas já flerta com as descobertas imensas de uma criança de 2. Isso quer dizer que, bem devagarinho, ela tem dado novos significados a esses hífens que nos unem. E eu tenho achado isso uma delícia. Quer dizer, em partes. Vocês vão entender.

Muitos acontecimentos têm me feito perceber essa mudança afetivo-gramatical (a pessoa tá gamada no hífen hoje), mas dois, que aconteceram no mesmo dia, são emblemáticos. Num, eu sou ela. Noutro, eu sou eu. Bem…

Dia desses, olhava as fotos dela recém-nascida (quem nunca?), matando a saudade daquela coisica deliciosamente molenga que há pouco havia saído de mim. Lá estava minha pinduquinha tão frágil e vulnerável em close na tela do laptop, quando sua versão caminhante se aproxima, vê a foto, aponta para a imagem e diz: “mamã”. Nessa hora eu morri e ressucitei umas 500 vezes de amor. Meu coração acelerou, perdi o fôlego, a pressão subiu. Foi coisa, viu? Lindeza de momento! A minha menininha olhava para si e me via. Nossos hífens são de amor legítimo, ninguém tira. Não a corrigi. Aliás, como corrigir quem está certo? Era eu na foto. Claro!

Ainda tremendo diante do computador, continuei vendo mais fotos da minha linduchita versão poucos dias fora do útero, enquanto a menininha-nenê já tinha se mudado para outro canto da casa e mexia aqui e acolá. Cinco minutos depois, ela me pede que leia um dos seus livros preferidos, que mostra uma série de macacos a fim de familiarizar os mini-leitores (hífens, uma tara) com diversas texturas. E lá vamos nós folheando e alisando o livro, vemos o macaco com o rabo muito aveludado, com as orelhas muito macias, com os pés muito delicados, com a barriga muito fofinha… Até que chegamos ao macaco com as sobrancelhas muito peludas. No que Nina aponta e diz: “mamã”.

Olhe, o negócio foi tão traumático que até hoje não tive coragem de marcar a depilação.

Pariu, então é hora de estar linda, minha cara

Dois dos poucos posts que esse blog recém-criado tem até agora falam de beleza, ou da tentativa de atingi-la, recuperá-la, evitar estragos, que seja. Num deles, me queixo da menina com a barriga de tábua que corria na esteira ao lado da minha; no outro, sugiro um produto para evitar o aparecimento de estrias na barriga durante a gravidez. Barriga, sempre ela!

Eu não sou das mais vaidosas, mas considero o cuidado com a aparência algo legítimo, saudável até. No caso das mães, as mudanças que a gestação e o pós-parto impõem aos nossos corpos podem repercurtir na imagem que fazemos de quem somos de uma maneira mais ou menos poderosa. E seja lá como for o processo de cada uma, o que fica é a certeza de que tudo o que acontece com a gente repercute nos nossos filhos, é ou não é? Então nada mais legítimo e saudável do que cuidar de si para cuidar bem do outro, no caso aquele outro que não se acha outro, acha que é você.

Daí que nesse mundo da pressa e do parecer, depois que o menino saiu da barriga, pá pum, é hora de estar linda, minha cara. Esse papinho de que a barriga levou 9 meses para crescer e levará outros 9 (ou mais!) para diminuir é coisa de gente antiquada, de mulher que vivia para família, não tinha outra ocupação na vida, não saía e por aí vai.

Eu preciso confessar que se isso é ser antiquada, meus pés cravados no passado.

Eu tenho essa mania besta de (na mioria das vezes, vai!) respeitar os limites que o meu corpo me impõe, principalmente quando se trata de coisas grandiosas como gerar uma outra vida e cuidar dela do lado de fora. Vejam bem, nada contra quem quer ficar gata depois de parir. Seria no mínimo hipocrisia da minha parte tentar fazer o gênero mãe das cavernas. Eu voltei a malhar com uma nenê de 2 meses em casa, lembram? Bom, eu preciso de endorfina para ser uma pessoa minimamente sociável, mas não deixemos o meu vício em substâncias químicas mudarem o foco da prosa. O que me incomoda nessa conversa toda é essa “obrigação” de se estar linda (leia-se magra) custe o que custar.

Compartilho aqui algumas manchetes e trechos de notas que tocam nesse assunto e que são da época em que estava grávida só para ver se elas explicam melhor o que estou tentando dizer:

É, eu sei, eu não deveria ler sites que publicam esse tipo de nota ~jornalístico-investigativa~, mas, pô, posso me permitir uma leitura estúpida e descompromissada de quando em vez? Não, pera, essa desculpa é melhor: posso entrar em sites noticiosos de qualidade duvidosa com o intuito de fazer uma pesquisa antropológica informal? (Limpei minha barra com vocês contando essa mentirinha?)

A verdade é que, além de poderem despertar uma vontade incontrolável de fazer que nem a atriz Fulana de Tal que, com 3 semanas de parida já estava exibindo seu tanquinho nas águas de Ipanema, e, por conta disso cometer sacrifícios injustificados ou, pior, prejudicar a relação com seu filho e/ou a saúde de ambos, essas notas refletem o que muita gente pensa: “hoje em dia só embaranga depois de ter filho quem quer”, “isso é coisa de mulher desleixada”, “os filhos vão ter vergonha de ter uma mãe gorda” e outras frases carentes de amor e tolerância.

Esse acordo coletivo da aparência padronizada, que desrespeita tendências genéticas, gostos pessoais e o tempo do corpo, me tira do sério. Eu não sei, viu? Fico aqui me perguntando, no meio de tanta exigência com a aparência, que tempo sobra para viver intensamente a razão do pós-parto por excelência?

Xô, estria!

Já que esse blog virou o muro das lamentações fúteis, eu vou contar uma historinha pra vocês, que culminará na dica preciosa de um produto milagroso.

Na adolescência, eu participei de um concurso um pouco é… diferente: a soteropolitana com mais estrias no corpo. Não vou entrar em detalhes pro post não ficar muito longo, mas, resumindo, o que rolou foi que deixei o corpo de jurados boquiaberto, ganhei de lavada, virei competidora hors concours e o prêmio passou, então, a levar o meu nome. De maneira que existe a Medalha Camila Novais de Mulheres Estrientas. Que orgulho, minha gente!

Ou não.

Daí que quando engravidei, eu tinha certeza de que a minha singela barriguinha ia estourar de estria. Mas, olha, vocês acreditam que a minha expectativa foi frustrada? Alguém aí disse “graças a Deus”? Pois bem, Nina ficou hospedada 41 semanas e 1 dia no meu bucho e ele ficou sucesso, lisinho. Um salve pra indústria de cosméticos!

O santo milagreiro: Biovergetures, da Biotherm. Valeu cada centavo dos CAN$ 50,00 + taxas (!!!) a bisnaga de 150 ml.

Voltando a malhar

Eu tava animadona pra voltar a correr. E hoje tudo deu certo! Nina acordou, mamou e voltou a dormir a tempo de me deixar ir à academia e retornar antes da hora de marido levantar pra pegar no batente. Até o tempo tava gostoso pra me fazer deixar ainda no escuro o quartinho aquecido: aprazíveis – 8°C (juro que não estou sendo irônica).

Daí que saí linda (cê jura?), loira (oi?) e saltitante (pulando os montes de neve), sonhando em retomar o treino. Chego na academia confiante, cumprimento com um sorrisão a nova recepcionista, subo feliz na minha esteira de estimação e começo: 2 minutos de corrida e 1 de caminhada, pra não forçar o corpo que há meses não acelera. Nos fones, “Da lama ao caos”, de Chico Science & Nação Zumbi, meus fiéis companheiros de malhação.

Tava tudo esplêndido até que…

A filha de chocadeira moça da esteira ao lado tira a camisa e começa a correr só de top, sambando na minha cara a barriga magriiiiiiiinha-magriiiiiiiinha. Mas que bosta de país é esse em que mulheres com aquele corpo podem ficar ao lado de recém-paridas? Essa merda desse Canadá não tem uma lei que proíba isso? Cadê o poder judiciário quando a gente precisa dele? Cadê autoridade policial?

Cadê vontade de viver?


“Molambo eu”