Carta para Amy Sherman-Palladino

Montreal, 28 de agosto de 2015.

Querida Amy,

Eu sou só mais uma das milhões de fãs do programa que você criou. Eu amo aquele negócio lá. Eu lavo os pratos vendo Gilmore Girls, eu preparo as refeições vendo Gilmore Girls, eu dobro as roupas que tiro da secadora vendo Gilmore Girls. Minha casa basicamente tem algum nível de organização e higiene graças a Gilmore Girls. Só isso já bastaria para eu escrever esta carta para você. No entanto, há mais a dizer, Amy, muito mais. Acontece que essa não é só uma carta de agradecimento. Na verdade, eu quero lhe pedir algo. Não, a gente não se conhece. Sim, eu quero lhe fazer um pedido.

Eu ainda não tinha minhas filhas quando assisti a todas as temporadas pela primeira vez. Mas tinha minha irmã, que as viu comigo e, na minha cabeça, eu era Lorelai, e ela, Rory. Nós nunca conversamos sobre isso porque, né, que v-e-r-g-o-n-h-a, mas eu me sinto na obrigação de abrir meu coração para você, Amy. É que a cumplicidade infinita que unia mãe e filha no seu show me contagiava de maneira tal, que eu precisava reproduzir aquilo com alguém, nem que fosse na minha imaginação, e com minha irmã.

Muitos anos se passaram, eu pari duas delicinhas cremosas e voilà, sinto nas minhas vísceras distanciadas pelas gravidezes, que não vale à pena ser mãe-e-filha – mãe-e-filhaS, no meu caso – se não houver o mesmo nível de comprometimento mútuo que Lorelai e Rory tinham. É, Amy, você criou um padrão para o exercício da maternidade. Altíssimo, diga-se. Mas, quero acreditar, alcansável, mesmo para uma senhorinha confusa feito eu. Tenho batido muito a cabeça para fomentar aquele ambiente de amor e respeito que as duas tinham.

Não bastasse o exemplo do prazer que é viver em simbiose profunda, você ainda criou Stars Hollow. Covardia aquele lugar, hein? Eu, como os milhões de fãs do programa, também quero morar lá. Me comprometo a ir a todas as reuniões do município (quem em sã consciência perderia tais encontros?) e a ser voluntária em todas as quermesses, feiras e comemorações cívicas. Você tem a minha palavra, Amy! Oi? Não, pera… Acho que a confusão entre ficção e realidade atingiu um outro nível nesse parágrafo. Por favor, Amy, ignore-o.

Juro que logo chegarei ao motivo real desta carta, mas antes preciso dizer que… M-e-u-D-e-u-s! Como você criou Kirk? Sério! Olha! Melhor personagem da teledramaturgia interplanetária. Kirk é indescritível, indomável, impossível! Vou fazer mais uma confissão aqui, viu, Amy: eu até evito assistir qualquer outra coisa da qual o ator que fez Kirk participe. Não é por nada, não. Eu só não quero macular aquele rosto com qualquer outra personalidade fictícia. É que em perfeição a gente não mexe, só se deixa arrebatar.

Bom, chegou a hora de pedir aquele algo a você, lembra? É o seguinte: você fez um bem danado à humanidade colocando na tão desgastada televisão um amor incomparável entre duas mulheres. E aí reside um problema. Mas não pelo alto padrão criado porque, como já disse, eu realmente acredito que, com um empurrãozinho, dê para chegar bem perto daquele paraíso ali. Sim, eu sou uma boboca que acredita no amor, eu sei. O problema é que são duas mulheres (calma, migas feministas, deixem eu concluir o raciocínio).

São duas mulheres, Amy. Tá. Na primeira temporada Rory tem 16 anos, mas não podemos ignorar a maturidade da menina, que, forçando só um pouquinho a barra (me alivia nessa, vai?), pode muito bem já ser considerada adulta. De modos que o vazio deixado pela série sobre a infância de Rory é um dos grandes mistérios da vida. Mães de todo o mundo (tá, só eu por enquanto! Mas certamente outras me acompanharão nesse movimento) se perguntam como Lorelai lidou com a filha aos 2-3 anos para que, aos 16, elas vivessem daquela forma tão sublime.

Então, cara Amy, caso você concorde em dar continuidade ao programa (e eu sei que sempre aparece uma proposta aqui e ali), por favor, não aceite o caminho mais fácil de fazer uma sequência. Faça uma prequel (Senhor! Acabei de descobrir que tentaram aportuguesar esse termo como “prequência”. Estou em choque!). Fale sobre os primeiros anos de vida de Rory, Amy. Sério! Você tem um compromisso com a espécie humana. Amy, só você tem o poder de revelar o segredo que vai salvar famílias, que vai colocar sorrisos constantes nos rostos de mães cansadas, que vai fazer desse planeta uma encubadora de amor para toda a galáxia.

A nova etapa do programa pode se chamar “Gilmore Girls: The Toddler Years”. Por favor, Amy. Por favor. Eu nunca te pedi nada.

Com carinho, da sua fã,

Camila.

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!