Dois anos, os terríveis?

Nina fez dois anos aos 18 meses. Explico: aos 18 meses ela só tinha 18 meses mesmo, aquele do calendário, mas a tal transformação com um quê de fúria que dizem acompanhar a chegada dos 2 anos chegou mais cedo, bem nessa época aí.

Na prática, isso equivale a dizer que a bebezinha de 1 ano e meio, que até então era naturalmente muito dependente e vivia quase que inteiramente sob os mandos e desmandos do papai e da mamãe, entendeu a força do “não” e passou a aplicá-lo com frequência.

– Filha, vamo comer?

– Não.

– Tá na hora de trocar de fralda, vamo?

– Não.

– Pinduca, vamo tomar banho!

– Não.

Muitas vezes o “não” saía por sair. Ela respondia “não” a um chamado e imediatamente depois fazia o que lhe havia sido proposto (santo eufemismo para ordenado hohoh). Mas o “não” estava presente. E com o tempo ele foi ganhando ainda mais frequência e força. A menina foi quebrando a casca da bebezisse e mostrando a pessoa-criança que vinha sendo forjada ali dentro.

Junto com os dentes cada vez mais numerosos, os cabelos mais cheios, a altura ainda mais impressionante, as feições um pouco mais amadurecidas, vem a mudança interna, sutil e que, sim, pode ser entendida como terrível. Não acho injustificada a alcunha de “terríveis 2 anos”. É um choque. Aquela doçurinha ganha uns toques de azedume e a dinâmica dentro de casa precisa mudar.

E mudou.

Aqui negocia-se. Claro que há coisas que são inegociáveis, exemplo: atravessar a rua sem dar a mão. Mas, em geral, o pai e a mãe da menina de 2 anos e 5 meses completados hoje, esforçam-se para levar em consideração, com o máximo de respeito possível, a sua opinião. E seguimos entendendo que nenhuma relação sólida se constrói sem empatia. Se nem eu puder entender que para a própria Nina é difícil deixar, quase que de um dia para o outro, de ser um bebê e passar a ser uma criança (um ser mais disperto para as coisas desse mundo, com desejos e sentimentos que se atropelam), eu não sei o que será de nós.

É cansativo em alguns momentos receber tantos “nãos” – para todos os envolvidos na história –, mas menos dolorido porque vivemos cultivando “sins”. Sim para as brincadeiras juntos, sim para a leitura repetidas vezes dos mesmos livros, sim para dormir agarrados, sim para as refeições juntos à mesa, sim para idas ao parque, sim para tanta cantoria, sim para beijos-abraços-chamegos…

No meio de tanto “sim”, os “nãos” ganham ares de exceção. O que tira um pouco o peso dos pais, que não precisam inventar tantas formas de contornar os conflitos; e da menina, que acaba cooperando porque entende, do jeito dela, que para cada vez em que é contrariada há um sem fim de “pode, sim, meu amor”.

Crescer é terrível. Terrivelmente lindo!

3 comentários em “Dois anos, os terríveis?”

  1. gabriela de andrade Disse:
    15 de abril de 2014 às 13:53

    Ai que delícia!!! Saudade das estórias!! E de Nina menina!!

  2. nadja Disse:
    15 de abril de 2014 às 14:11

    Eba!! voltou!!
    Meninaaaa, cada dia é uma coisa! E haja paciência e amor! hahahah

  3. Regina Célia Martins Disse:
    15 de abril de 2014 às 22:29

    Crescer é terrivelmente lindo. Sua avó, D. Lurdes, me disse que Nina vai ter um irmão. Bom demais.Crescer é lindo. Bjos

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