Treta (imaginária) no parque

Dia lindo de verão, coloquei a cria no carrinho e fui passear no parque. Chegando à área destinada às crianças pequenas, avistamos uma série de pitocos remelentos se revezando entre descer na escorregadeira e comer areia.

Minha filha ama o balanço e quer testar todos. Afinal, vai que esse voa mais alto que aquele? Ficamos nesse vai-e-vem até que do outro lado do parque, uma casinha com mesa e bancos lhe faz um convite irrecusável. Chega de se balançar.

Nina sobe, então, os dois degraus que a levam ao “imóvel”, e se depara com três meninas que já brincavam por lá. Uma com pouco mais de 1 ano, outra com seus 2 anos e meio e a mais velha que deve beirar os 4. As três estão sentadas e Nina as observa de pé.

Um menino, também passado de seus 3 anos, chega gritando e tenta sentar junto delas, no que é imediatamente advertido pela mais velha: “ei, você não pode sentar aqui. Se quiser sente lá do outro lado (num banquinho isolado)”. Ele questiona sem muita força, com ares de vencido: “por que?” “Porque está chovendo e eu estou protegendo a nossa casa”.

Eu fiquei com cara de “oi? Mas o bichinho não deveria poder entrar justamente porque está chovendo?”. Mas como aquilo pareceu fazer sentido para ambos, tanto que ele sentou longe e mudo ficou, eu tentei fingir que aquele diálogo foi normal. E, não, não estava chovendo.

Menino domado, a mais velha prossegue preparando uma panqueca. Cada vez que ela abaixava para pegar areia no chão (o ingrediente das panquecas), a de 2 anos e meio desfazia tudo, aos risos. Chateada, a cozinheira dizia: “não tem graça! Pare com isso! Você não tem direito de mexer na minha comida”.

Minutos depois, o menino se mexe de leve em seu banco (sei lá, talvez tivesse entrado muita areia na roupa e ele só estava tentando espanar o fiofó), no que a menina retruca secamente: “sente aí. Fique aí”. E o menino sentou.

Depois de muito observar a cena, Nina tenta mexer nas panquecas, sendo imediatamente repreendida pela cozinheira. Para que a terceira guerra mundial não fosse deflagrada num parque infantil na pacata Montreal, eu pego areia e folhas do chão, coloco na mesa e começo a brincar com a pinduca: “vamos, filha, vamos preparar uma omelete de espinafre para todos”.

Quando começamos a preparar tudo, as duas mais velhas retrucaram: “ah! Mas ela não pode cozinhar. Aqui é a NOSSA casa! Ela só vai brincar se a gente deixar”. Ao ouvir isso, confesso que mentalmente criei um diálogo com elas no qual dizia coisas maduras tipo: “oxe! Cês tão malucas, é? Se essa casa é mesmo de vocês, cadê a escritura? Cadê??????????? Aliás, minha filha, isso aqui nem casa é. Me poupe! Isso é um parque, par-que! De modos que o espaço é público e todo mundo pode entrar a hora que quiser. E essa bosta de panqueca que você tá fazendo tá um horror. Tá queimando, cê não tá vendo? Ninguém vai querer comer essa merda aí. Aliás, isso é areia, minha filha, areia, OK? E pára com esse negócio de ficar dando ordem em todo mundo. Que saco!”

Mas aí eu lembrei que era a única adulta ali (e pior: mãe!), que deveria agir como tal e apenas fui jogar bola na grama com minha filha, que nem se importou com o despejo.

5 comentários em “Treta (imaginária) no parque”

  1. Keiko Disse:
    8 de agosto de 2013 às 15:35

    Conflito de gerações, versão primeira infância… Já vi a Nina de cá (que é invariavelmente a chefe/dona da casa/professora/motorista/Hitler na escolinha), sendo mandada pro cantinho pelas amigas apenas 1 ano mais velhas. Assim como ja a vi defender os amiguinhos 1 ano mais novos que ela, contra imperadores mais velhos… e eu tb já dei muito sermão imaginário em criancinhas que parecem inofensivas, essas farsantes…

  2. gabriela de andrade Disse:
    8 de agosto de 2013 às 16:05

    Incrivel como todas as maes sentem a mesma coisa né? Mandou bem na treta, disse poucas e boas, ela bem que merecia! Ai ai ai…

    (to de cara com a quantidade de nome pra escorrega…. Vc, bahiana, fala “escorregadeira”, batone, paulistano, diz “ecorregador”, eu, carioca, digo “escorréééga”, com acento molinho no “e”. Será que tem outras nomenclaturas pelo Brasil?)

  3. Camila Disse:
    8 de agosto de 2013 às 16:15

    Miguxa, tô esperando o dia em que Nina vai trocar de lugar e ser a “chata”. Juro que vou me sentir muito pior.

    Gabiru, gostei mais da versão carioca hahahah

  4. Flavia Disse:
    8 de agosto de 2013 às 19:04

    Desculpa, mas quebeca mandona é o que nao falta aqui nesta Montreal velha (e casada) e guerra…kkkkkk

  5. Alayde Disse:
    12 de agosto de 2013 às 10:55

    Oi Mila,

    Adorei. Faço isso direto quando estou com Rafinha. Uma VONTADE de pular na criança que tá querendo se meter a besta com meu filho e brigar com ela. Só que lembro que sou a ADULTA…e que os outros são crianças..

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