O exercício do amor e o acolhimento do “exagero”

Nos últimos dias, diversos amigos e conhecidos compartilharam nas redes sociais de que participo um artigo sobre como uma tal “hiper sensibilidade” das mulheres (essas são palavras minhas, não de Yashar Ali, o autor) é algo inerente a elas e jamais algo motivado pela maneira como as tratamos, as concebemos ou como lidamos com as nossas próprias emoções. Mulheres são loucas e exageradas por natureza, suas reações emocionais a “comentários bobos” são sempre desproporcionais porque, afinal, o cara estava “só brincando”, “nem é pra tanto” (palavras minhas de novo).

Yashar Ali segue argumentando sobre o ato de “gaslaitear” (a palavra é feia e o seu significado pior ainda) e como essa atitude serve para deixar as mulheres “minadas e postas de lado”, como o autor diz no texto. Aliás, se quiser dar uma pausa para ler o artigo que menciono, esse é um bom momento. É só clicar aqui.

Mas o que isso tem a ver com maternidade? Milhões de coisas, mas eu queria me concentrar em uma especificamente.

Por motivos óbvios, me interesso por conversas que falam de feminismo, de conquistas, representações, atrasos e preconceitos que envolvem gêneros. Mas a verdade é que, há quase dois anos maternando, o assunto crianças me suga de uma forma tal que as vejo em todos os lugares. Dito isso, enquanto ia lendo o artigo citado, inconscientemente substituía a palavra “mulher” por “criança”, e vi como nesse aspecto as pensamos de maneira tão parecida.

Crianças também são “loucas”, “emotivas”, “sensíveis demais”, “descontroladas” e portanto precisam ser “domadas”, “civilizadas”. Sim, crianças são como seres das cavernas (um beijo, Dr. Karp!), com um pé na irracionalidade e com o instinto à flor da pele. É difícil lidar com isso? Opa! Claro que é. Mas quer saber? Sem demagogia? Que bom que crianças são assim: sensíveis. Que bom que elas não têm vergonha (os muito pequenos, sobretudo) de demonstrar seu descontentamento com um choro que vem da alma ou a sua alegria com um grito que gente com mais de 12 anos nem lembra mais como é que se faz.

Essas emoções genuínas são uma das caras mais marcantes da infância, mas são consideradas algo ruim, menor, feio até, e que precisam ser corrigidas a qualquer preço, incluindo palmadas, castigos e ameaças; para não falar de abusos mais doloridos. Todas essas formas de abordagem da emoção infantil – que pode aparecer como um chorinho discreto no colo da mãe ou um chilique cinematográfico no meio do shopping – só ignoram a origem da manifestação. Tendo a achar que não funcionam. Talvez momentaneamente, e só.

Pela minha própria experiência pessoal (de antes de ser mãe) e por tudo o que tenho lido e conversado sobre o exercício da maternidade consciente e comprometida, aposto minhas fichas no jargão da psicologia que diz que sentimento precisa ser acolhido. Um filho que chora é uma pessoa que expressa uma dor: seja por conta da frustração por não poder brincar naquela hora, da sensação de abandono quando os pais o deixam na creche, do susto pela picada da agulha e por aí vai. E o que fazemos com aquela dor? Adultos e experientes, sabemos que ela vai passar, que existem coisas muito mais difíceis para se lidar na vida. Sim, é verdade: depois do banho a criança vai poder brincar de novo, o pai vai voltar para pegá-la no fim do dia e a injeção leva poucos minutos para ser esquecida. Mas por que ignorar a dificuldade pela qual a criança está passando naquela hora? Por que é preferível pedir-lhe que pare de chorar ou tentar distraí-la com uma conversa fiada, ao invés de abraçá-la, dizer que entende o que ela está sentindo e que vai ajudá-la a superar aquilo?

Por que a dor do outro precisa passar rápido? Por que o sofrimento alheio nos irrita tanto? Por que pimenta nos olhos dos outros é refresco? Por que a gente não age com empatia na maior parte das vezes? Por que choro de criança é sempre birra, falta de educação, manha? Por que não temos tempo de olhar com cuidado para aquela criatura que depende de nós para aprender a lidar com os seus próprios sentimentos? Por que, caramba?!

Eu gosto de achar que choro não é algo para ser engolido, mas para ser externado e entendido. Então, o papel de quem cuida de crianças é orientá-las a respeitar aquilo tudo que se sente, seja lá o que for, colocando para fora o sentimento e refletindo sobre o que se vê. Isso é parte essencial da imensidão de significados belos e fortes por trás da palavra educar. E tem mais: se nós, a quem é atribuído o tal do amor incondicional, não somos capazes de receber nossos filhos integralmente, com seus “dramas” e “exageros”, quem será?

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

6 comentários em “O exercício do amor e o acolhimento do “exagero””

  1. Aline Disse:
    22 de agosto de 2013 às 10:18

    Simplesmente maravilhoso!

  2. gabriela de andrade Disse:
    22 de agosto de 2013 às 10:43

    Demais, Camila. E quando a gente tem a postura do acalanto, nos sentimos mais acalentados também, já que ao invés do choro terminar na impaciência dos pais, ele termina num abraço de consolo gostoso, que faz bem pra criança e pra gente.

  3. Keiko Disse:
    22 de agosto de 2013 às 13:42

    Bom demais, demais da conta, Miguxa! Engraçado que li um capítulo de um livro hoje de manhã que falava exatamente sobre isso. A autora (Key Kuzuma – The first seven years) fala sobre como nós, como pais, devemos manter o “copo do amor” dos nossos filhos sempre cheios, e que quase sempre, um choro, uma birra, um ataque são sinais de um “copo de amor” esvaziando, ou vazio, e que nosso papel é enchê-lo de novo, e não esvaziar de vez pelo “não acolher”, não escutar, não valorizar o problema, o sofrimento por todas as razões possíveis (da formiga que morreu ao sono).

  4. Fernanda Disse:
    22 de agosto de 2013 às 20:37

    Arrasou, amiga.

  5. Tais Disse:
    23 de agosto de 2013 às 05:31

    Perfeito, amiga! Penso exatamente assim, e acho que quando nos empoderamos enquanto mães, passamos a compreender as necessidades dos nossos filhos de maneira a ajudá-los e não para julgá-los. Fácil, não é. Imagina pra eles! Desde aquela máxima terrível de “deixa essa crianca chorar no berço, ela esta te manipulando”, precisamos entender as necessidades dessas pessoinhas pequenas ao invés de so pensarmos no que eh conveniente para nos, adultos. Apesar de que NUNCA me foi conveniente assistir ao choro de ninguém, imagina o da minha filha. Amor, amor, amor!!!!

  6. Delana Disse:
    30 de agosto de 2013 às 01:16

    É isso, Mila. Quem será? ;)

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