A filha que imita os pais

Momento clássico da infância é quando a(o) filha(o) começa a usar as coisas da mãe e do pai. Abre os armários, mexe nas gavetas em busca de roupas, sapatos, bolsas, bijuterias, maquiagem…

Há tanta graça na criança que borrou o próprio rosto com batom, que fica ainda menor quando engolida pela camiseta do adulto ou que tropeça tentando equilibrar-se numa sandália de salto alto (opa! Essa sou eu).

A verdade é que aqui em casa dona moça tem nos imitado muito. Aí você pensa: “ah! Que bonitinho… Já imagino Nina com os anéis da mãe nos dedos ou usando os gorros do pai”.

Quem me dera. Assim sendo, teríamos fotos melhores dos primeiros anos de vida dela. O negócio da menina é pegar o primeiro papel/pano que vir pela frente, agachar-se e mandar ver na limpeza do chão.

 

_DSC0003red

Afinal, é só o que se faz nessa casa cheia de glamour.

O exercício do amor e o acolhimento do “exagero”

Nos últimos dias, diversos amigos e conhecidos compartilharam nas redes sociais de que participo um artigo sobre como uma tal “hiper sensibilidade” das mulheres (essas são palavras minhas, não de Yashar Ali, o autor) é algo inerente a elas e jamais algo motivado pela maneira como as tratamos, as concebemos ou como lidamos com as nossas próprias emoções. Mulheres são loucas e exageradas por natureza, suas reações emocionais a “comentários bobos” são sempre desproporcionais porque, afinal, o cara estava “só brincando”, “nem é pra tanto” (palavras minhas de novo).

Yashar Ali segue argumentando sobre o ato de “gaslaitear” (a palavra é feia e o seu significado pior ainda) e como essa atitude serve para deixar as mulheres “minadas e postas de lado”, como o autor diz no texto. Aliás, se quiser dar uma pausa para ler o artigo que menciono, esse é um bom momento. É só clicar aqui.

Mas o que isso tem a ver com maternidade? Milhões de coisas, mas eu queria me concentrar em uma especificamente.

Por motivos óbvios, me interesso por conversas que falam de feminismo, de conquistas, representações, atrasos e preconceitos que envolvem gêneros. Mas a verdade é que, há quase dois anos maternando, o assunto crianças me suga de uma forma tal que as vejo em todos os lugares. Dito isso, enquanto ia lendo o artigo citado, inconscientemente substituía a palavra “mulher” por “criança”, e vi como nesse aspecto as pensamos de maneira tão parecida.

Crianças também são “loucas”, “emotivas”, “sensíveis demais”, “descontroladas” e portanto precisam ser “domadas”, “civilizadas”. Sim, crianças são como seres das cavernas (um beijo, Dr. Karp!), com um pé na irracionalidade e com o instinto à flor da pele. É difícil lidar com isso? Opa! Claro que é. Mas quer saber? Sem demagogia? Que bom que crianças são assim: sensíveis. Que bom que elas não têm vergonha (os muito pequenos, sobretudo) de demonstrar seu descontentamento com um choro que vem da alma ou a sua alegria com um grito que gente com mais de 12 anos nem lembra mais como é que se faz.

Essas emoções genuínas são uma das caras mais marcantes da infância, mas são consideradas algo ruim, menor, feio até, e que precisam ser corrigidas a qualquer preço, incluindo palmadas, castigos e ameaças; para não falar de abusos mais doloridos. Todas essas formas de abordagem da emoção infantil – que pode aparecer como um chorinho discreto no colo da mãe ou um chilique cinematográfico no meio do shopping – só ignoram a origem da manifestação. Tendo a achar que não funcionam. Talvez momentaneamente, e só.

Pela minha própria experiência pessoal (de antes de ser mãe) e por tudo o que tenho lido e conversado sobre o exercício da maternidade consciente e comprometida, aposto minhas fichas no jargão da psicologia que diz que sentimento precisa ser acolhido. Um filho que chora é uma pessoa que expressa uma dor: seja por conta da frustração por não poder brincar naquela hora, da sensação de abandono quando os pais o deixam na creche, do susto pela picada da agulha e por aí vai. E o que fazemos com aquela dor? Adultos e experientes, sabemos que ela vai passar, que existem coisas muito mais difíceis para se lidar na vida. Sim, é verdade: depois do banho a criança vai poder brincar de novo, o pai vai voltar para pegá-la no fim do dia e a injeção leva poucos minutos para ser esquecida. Mas por que ignorar a dificuldade pela qual a criança está passando naquela hora? Por que é preferível pedir-lhe que pare de chorar ou tentar distraí-la com uma conversa fiada, ao invés de abraçá-la, dizer que entende o que ela está sentindo e que vai ajudá-la a superar aquilo?

Por que a dor do outro precisa passar rápido? Por que o sofrimento alheio nos irrita tanto? Por que pimenta nos olhos dos outros é refresco? Por que a gente não age com empatia na maior parte das vezes? Por que choro de criança é sempre birra, falta de educação, manha? Por que não temos tempo de olhar com cuidado para aquela criatura que depende de nós para aprender a lidar com os seus próprios sentimentos? Por que, caramba?!

Eu gosto de achar que choro não é algo para ser engolido, mas para ser externado e entendido. Então, o papel de quem cuida de crianças é orientá-las a respeitar aquilo tudo que se sente, seja lá o que for, colocando para fora o sentimento e refletindo sobre o que se vê. Isso é parte essencial da imensidão de significados belos e fortes por trás da palavra educar. E tem mais: se nós, a quem é atribuído o tal do amor incondicional, não somos capazes de receber nossos filhos integralmente, com seus “dramas” e “exageros”, quem será?

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

Pela felicidade de se exercer a paternidade integralmente

É dia dos pais no Brasil (aqui comemora-se em junho) e eu só consigo pensar que ainda falta muito para que os homens sejam protagonistas na criação de seus filhos. Eu não tenho qualquer base científica para explicar profundamente porque as famílias ainda têm nas mães a principal (ou única) responsável por essa tarefa. Tenho minhas suspeitas, mas prefiro não falar delas nesse momento. Me limito a observar. E fico com a impressão de que haveria mais felicidade se não fosse assim.

Os homens estão lá, mas nem tanto. Nem vou entrar na seara de pais que abandonam as crianças ou os maltratam porque senão a conversa não teria fim. Eu falo de algo muito mais “leve”, corriqueiro e aceito. Falo dessas casas em que há papai-mamãe-bebê-cachorro-papagaio, mas o personagem papai é aquela figura distante, que só aparece como provedor ou o pacificador de conflitos que ele nem pôde testemunhar, bem no esquema “quando seu pai chegar, eu vou contar tudo e você vai ver só”. No máximo, o pai é aquele cara que fica olhando o bebê no berço para que a mãe possa tomar um banho rápido. Parece ser um perfil ultrapassado, mas ainda há muito homem com esse comportamento.

Todos sabemos que esse papel não é justo com as crianças nem com as mulheres, mas eu queria dizer que também não o acho justo com os homens. Ganha-se tanto nas trocas de fraldas, nos carinhos antes de dormir, na loucura que é brincar no parque, nos mergulhos no mar, no ensino do manejo da escova de dentes, no acolhimento nos momentos de mau humor e tristeza, na escolha do cardápio, nas reflexões sobre o papel da escola, na hora de desmontar o berço ou de preparar o feijão.

O pai protagonista, que, por favor, não é aquele que “me ajuda”, é o que participa da rotina da cria porque se sente responsável pela pessoa que colocou no mundo e entende que uma mãe que carrega os filhos sozinha fica exausta. Eu tendo a achar que esse pai que se preocupa em acertar, que está atento a como suas atitudes serão assimiladas pelos filhos e que entende que tudo mudou depois da chegada das crianças terá muito mais trabalho, muito menos tempo para si, mas uma sensação de dever cumprido que o preencherá profundamente.

Esse pai que se envolve verdadeiramente na vida dos pequenos está cultivando a própria felicidade, fruto da expressão diária do amor. Simples assim, como são todas as coisas complexas. Dito isso, desejo sinceramente aos homens que se permitem exercer a paternidade integralmente um dia muito feliz. Aos demais, um dia tão feliz quanto, com o bônus da reflexão sobre a força que a presença afetiva de um pai carrega.

Treta (imaginária) no parque

Dia lindo de verão, coloquei a cria no carrinho e fui passear no parque. Chegando à área destinada às crianças pequenas, avistamos uma série de pitocos remelentos se revezando entre descer na escorregadeira e comer areia.

Minha filha ama o balanço e quer testar todos. Afinal, vai que esse voa mais alto que aquele? Ficamos nesse vai-e-vem até que do outro lado do parque, uma casinha com mesa e bancos lhe faz um convite irrecusável. Chega de se balançar.

Nina sobe, então, os dois degraus que a levam ao “imóvel”, e se depara com três meninas que já brincavam por lá. Uma com pouco mais de 1 ano, outra com seus 2 anos e meio e a mais velha que deve beirar os 4. As três estão sentadas e Nina as observa de pé.

Um menino, também passado de seus 3 anos, chega gritando e tenta sentar junto delas, no que é imediatamente advertido pela mais velha: “ei, você não pode sentar aqui. Se quiser sente lá do outro lado (num banquinho isolado)”. Ele questiona sem muita força, com ares de vencido: “por que?” “Porque está chovendo e eu estou protegendo a nossa casa”.

Eu fiquei com cara de “oi? Mas o bichinho não deveria poder entrar justamente porque está chovendo?”. Mas como aquilo pareceu fazer sentido para ambos, tanto que ele sentou longe e mudo ficou, eu tentei fingir que aquele diálogo foi normal. E, não, não estava chovendo.

Menino domado, a mais velha prossegue preparando uma panqueca. Cada vez que ela abaixava para pegar areia no chão (o ingrediente das panquecas), a de 2 anos e meio desfazia tudo, aos risos. Chateada, a cozinheira dizia: “não tem graça! Pare com isso! Você não tem direito de mexer na minha comida”.

Minutos depois, o menino se mexe de leve em seu banco (sei lá, talvez tivesse entrado muita areia na roupa e ele só estava tentando espanar o fiofó), no que a menina retruca secamente: “sente aí. Fique aí”. E o menino sentou.

Depois de muito observar a cena, Nina tenta mexer nas panquecas, sendo imediatamente repreendida pela cozinheira. Para que a terceira guerra mundial não fosse deflagrada num parque infantil na pacata Montreal, eu pego areia e folhas do chão, coloco na mesa e começo a brincar com a pinduca: “vamos, filha, vamos preparar uma omelete de espinafre para todos”.

Quando começamos a preparar tudo, as duas mais velhas retrucaram: “ah! Mas ela não pode cozinhar. Aqui é a NOSSA casa! Ela só vai brincar se a gente deixar”. Ao ouvir isso, confesso que mentalmente criei um diálogo com elas no qual dizia coisas maduras tipo: “oxe! Cês tão malucas, é? Se essa casa é mesmo de vocês, cadê a escritura? Cadê??????????? Aliás, minha filha, isso aqui nem casa é. Me poupe! Isso é um parque, par-que! De modos que o espaço é público e todo mundo pode entrar a hora que quiser. E essa bosta de panqueca que você tá fazendo tá um horror. Tá queimando, cê não tá vendo? Ninguém vai querer comer essa merda aí. Aliás, isso é areia, minha filha, areia, OK? E pára com esse negócio de ficar dando ordem em todo mundo. Que saco!”

Mas aí eu lembrei que era a única adulta ali (e pior: mãe!), que deveria agir como tal e apenas fui jogar bola na grama com minha filha, que nem se importou com o despejo.

Nossos nomes revelam nossa alma

Foi ensinado à menina de 1 ano e 8 meses que mora aqui em casa que os seus pais, assim como ela, assim como todo mundo, têm um nome.

Quando ela tá a fim de falar (né?), ela responde assim às seguintes perguntas:

– Filha, como é o nome do papai?

– Mossí (Maurício). Com direito a linguinha entre os dentes que é pra ficar mais lindinho.

– Filha, e o nome da mamãe, qual é?

– Mala.

E é isso.