O medo da cozinha de brinquedo

Nina ganhou uma cozinha de brinquedo; presente nosso. Mas não sem antes termos conversado um bocado sobre o que ele poderia representar para ela.

Antes de mais nada, falemos do óbvio: não, a igualdade não chegou à cozinha. Não nos enganemos e não enganemos nossas filhas. Nem nossos filhos. As mulheres ainda são maioria nesse espaço. E não necessariamente por uma escolha. Não falo dos chefs badalados, dos reality shows de panelas, nem do moço bonito na capa do livro na seção de culinária (e que ainda cozinha bem, veja que mundo injusto!). Falo da escolha pelo cardápio diário, de pensar num rango nutritivo para ajudar no crescimento da cria, e do inferno que é lavar aquele tanto de panela e prato e talher e copo quando tudo o que se quer é converser besteira até o sono vencer. São as mulheres, meus caros, que estão sozinhas na cozinha. Ainda há muito sutiã para ser incinerado.

Daí que a gente não queria, ao dar a cozinha mais lindinha para nossa meninucha, confiná-la à idéia de que aquela era uma “obrigação de menina”. Arrrggghhh! Nem as aspas me salvaram do peso que essa expressão tem. Que medo de passar uma mensagem machista para aquele coração ainda livre das discussões sobre como os gêneros parecem determinar, sem muita possibilidade de escaparmos, o caminho que devemos seguir.

Até que relaxamos um pouco quando passamos a olhar para os nossos próprios umbigos. Não seriam uns blocos de madeira organizados de maneira lúdica os responsáveis por dizer que, pejorativamente, aquele é o lugar dela. Até porque o pai dela também está na cozinha: o pai dela também limpa o chão que ela suja quando almoça; o pai dela também chora cortando cebola; o pai dela também prepara as refeições da família; o pai dela também se vira com as frutas que brotam do fundo da geladeira e o leite quase no fim para oferecer vitamina para a menina. Na cozinha de verdade aqui de casa tem menina e menino também. Então se o que ensina é o exemplo, não temos o que temer.

Sem falar que aqui na terra fria em que vivemos, quem cuida da cozinha é quem mora na casa. Cozinha não é aquele lugar distante em que pegamos um copo d’água, mas um espaço que serve para a intimidade dos moradores; onde há trabalho, gratidão pelo alimento à disposição e um convite para se jogar conversa fora. Ou seja, a paixão pelo visual da cozinha de brinquedo, que nos tomou primeiramente, transformou-se numa forma de permitir a dona moça que imitasse a mamãe (e o papai!) num ambiente do tamanho dela, sem enormes portas de armários opressores, sem facas afiadas ou panelas fumegantes. Aquele é o lugar dela também. Sem insultos.

“Mas e se Nina fosse um menino, vocês comprariam uma cozinha para ele?” Quero acreditar que sim.

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)

Nina brincando com a cozinha. Opa! ;o)