A menina quer calçar as próprias meias

Cada vez que um par de meias aparece em sua frente, ela tenta calçá-los. T-o-d-a-s as vezes. Cada uma delas.

Tem sido assim nas últimas semanas. Não importa o par, não importa nem se aquelas meias formam um par, não importa se estão limpas, não importa se vamos sair, não importa se precisa. As meias estão acolá, os pés ali, ela sente a necessidade de uni-los. Imita o gesto com perfeição, posiciona os pés corretamente, mas não consegue calçar-se. A tarefa almejada exige uma complexidade na organizacão dos gestos que ela parece ainda não ter.

Mas ela não se irrita.

Ela não se acanha.

Como se munida da certeza de que um dia vai saber fazer aquilo. Ou melhor, de que já sabe, mas ainda não dá. E tudo bem.

Observando-a, entendo que saber calçar as meias é parte de quem ela é, parte das insondáveis sabedorias latentes que ela carrega, mas ainda não pode expressar. Porque sim. Porque é assim. Porque leva tempo.

Eu fico próxima, pronta para ajudá-la a cobrir os pés ou consolá-la se ela ficar chateada, mas ela nunca precisou. Ao ver que ainda não dá, asfata-se pacificamente das meias e vai procurar outra coisa para fazer. E se for hora de sair de meias, ela estende os pés em minha direção. Sem ressentimento pelo que não foi.

Enquanto isso, minha filha, deixa que a mamãe calça você.