Falar com estranhos, que lindo!

Sempre que neva e eu preciso sair com Nina para algum lugar por perto, uso um meio de transporte relativamente comum por aqui essa época do ano: trenó. Mas deixa eu explicar: é para uso exclusivo das crianças (fuén!). Triste, né? Aqui na cidade, pelo menos, eu  nunca vi nenhum adulto ser puxado por trenó. Uma pena porque eu ia a-m-a-r! Pensa na delícia?! Um dia ainda faço uma zorra dessas!

Dia desses, voltando do supermercado cumprindo a função de husky siberiano particular de minha filha, eu tinha a corda do trenó numa das mãos e o saco com as compras na outra. A pequena ia se divertindo horrores com a neve no chão, enquanto eu lutava contra as montanhas de gelo nas esquinas, a luva que insistia em se enroscar na sacola quase derrubando as compras e os flocos de neve que elegeram meus olhos como alvo único no mundo.

Tomada pelo mau humor, reclamando em voz alta com a Natureza pela demora da chegada da primavera e arrependida de ter imigrado (apenas!), tive minha atenção interrompida por um senhor de barba grisalha gritando do outro lado da rua: “que lindo!”

Não dei muita bola porque achei que, assim como eu, ele estava simplesmente falando sozinho no meio da rua (normal, né, gente? Todo mundo faz isso. Né?????????????????) e segui o meu caminho.

Até que ele mudou seu rumo, andou até mim e disse:

“Desculpa, senhora, mas, ao ver uma cena dessas, não posso deixar de comentar como ela é linda! Uma mãe e sua filha no meio da neve, usando trenó… Ah! Que lindo! Vocês estão lindas! Tenha certeza de que sua filha vai se lembrar desses momentos com muita alegria. Esses passeios de trenó vão marcar a memória dela, ela vai lembrar da infância feliz que teve. Ao ver vocês, lembrei de como meus filhos e eu nos divertíamos quando andava de trenó com eles. Olha, eu tenho três filhos, o meu bebê mais novo tem 30 anos, e eu não me esqueço desse sentimento, apesar de fazer tanto tempo.”

Eu ouvia tudo aquilo sorrindo o que fez com que os flocos de neve desviassem dos meus olhos e passassem a gelar as minhas gengivas. Quando ele terminou de falar, agradeci imensamente por ele ter parado para me dizer todas aquelas coisas tão bonitas. “O senhor me fez ganhar o dia!”

Findada a conversa, eu estava curada do mau humor e cada um foi seguindo seu caminho. Mas, de longe, ainda nos olhávamos. Ele colocava as mãos no peito, eu sorria; ele sorria, eu sorria; ele gritava “que lindo!”, eu sorria…

Quando percebemos que as esquinas finalmente nos afastariam por completo, trocamos desejos de felicidades para nossas famílias e jogamos beijos no ar.

Ele tinha razão: “que lindo!

Neve, frio, caos e mesmo assim lindo!