O doce marketing da indústria alimentícia

Num encontro informal entre mães com filhos da mesma idade da minha, conversávamos sobre diversos assuntos (todos girando em torno das crianças, obviamente, né?) até que chegamos à alimentação. Num dado momento, comentei que a minha cria adora iogurte (natural integral) com frutas e mesmo puro. Conversa vai conversa vem, citei os petits suisses. Tá ligado em petit suisse, né? Aquela paradinha que todo mundo acha que é iogurte, mas não é, e que andavam dizendo que valia por um bifinho? Então! É esse. Aproveita para se informar melhor sobre ele nesse texto produzido por Thais Ventura, do blog “As delícias do Dudu”.

Sem ser a chata desagradável que causa constrangimento geral, falei que nunca compramos esse produto aqui em casa porque, apesar da versão local não ter conservantes ou corantes, a quantidade de açúcar era muito alta, muito acima da recomendada para a idade dela blá blá blá. As outras mães, super educadas, ouviram a minha ladainha e, quando finalmente me calei, retrucaram quase num coro ensaiadíssimo, apesar do improviso (foi lindo, gente! Só vocês vendo!):

“Não se preocupe! Pode dar. É FEITO ESPECIALMENTE PRA CRIANÇA”

Me segurei para não soltar uma piadinha infame (“é feito à base de leite materno? Ehhehe”), mas fiquei com medo de ser completamente excluída da conversa e me limitei a dar um sorriso amarelo e soltar um “ah tá”.

Voltei para casa abismada com o que aconteceu. Não pelo fato das mães darem petit suisse aos seus filhos. Não mesmo! Espero também que elas não me odeiem por dar iogurte azedo à minha. Cada casa com seus hábitos e o diálogo é sempre bem vindo. O que me deixou assombrada foi o poder do marketing sobre as nossas decisões. “Nossas” mesmo; euzinha incluída. E nessa hora me lembrei tanto desse texto de um outro blog que adoro, o “Infância livre de consumismo”, escrito por outra Thais, a Vinha.

Bom, a tal frase dita em coro continuava ecoando na minha cabeça. E eu só conseguia pensar em como a indústria alimentícia se aproveita da inclinação do paladar infantil para os sabores mais adocicados, cria um produto transbordando de açúcar, adiciona uma vitamina aqui e outra ali, chama um publicitário para dizer que aquilo vai fortalecer os ________ (escolha uma parte do corpo) e pronto, a mãe consumidora do outro lado da revista e da TV acredita, compra e se sente mais aliviada porque Juninho não comeu os legumes, mas compensou comendo o petit suisse ~cheio de vitamina~.

Aí eu fui olhar o guia que é distribuído nos hospitais quando as mulheres grávidas se inscrevem para fazer o pré-natal para ver se eles falavam algo sobre alimentos com açúcar. É que as outras mães reagiram com tanta naturalidade à minha desconfiança aos petits suisses que eu fui ver se era um hábito local enraizado e eu, recém-chegada, estava dando uma bola fora. Respirei aliviada porque confirmei na seção que dá conta da alimentação que todas as sugestões são nutritivas, naturais, cósmicas, emocionantes. Findada a minha pesquisa, eu continuei folheando o guia e me deparei com uma publicidade (siiiiiiiiim, amiguinhos, vocês leram certinho: publicidade) do tal do petit suisse “feito especialmente para crianças”. Aiiiiiiiiii que decepção! Adivinha quem vai entrar em contato com a equipe responsável pelo guia e perguntar se eles acham que isso é bacana?

Para terminar essa conversa açucarada, eu vou responder uma pergunta que ninguém me fez: não, eu não tenho a pretensão de privar minha filha de alimentos que levem açúcar (aliás, aproveito para aplaudir de pé adultos e crianças que não o consomem. Vocês são pessoas evoluídas!). Mesmo o branco refinado, aquele maldito que foi criado no Sétimo Dia, quando Alah descansou. Mas eu entendo que está entre o básico dos básicos das minhas funções de mãe atentar para o que minha filha come e tentar ajudá-la na construção de um paladar que a faça crescer observando aquilo que a alimenta, com especial atenção aos seus dois primeiros anos de vida. Se eu não puder trabalhar em prol da saúde dela, estimulando-a a consumir mais o que é melhor para o seu corpo e mostrar que algumas delícias podem fazer parte da vida dela mas com moderação, é melhor entregar o cargo que me foi confiado.

3 comentários em “O doce marketing da indústria alimentícia”

  1. gabi Disse:
    5 de dezembro de 2012 às 13:35

    uma decepção mesmo! nem tinha me dado conta… vou lá olhar! tb nunca comprei o tal petit… sempre foi no natureba e leite (da vaca) sempre puro, nada de açucar ou achocolatado… mas confesso q essa semana deixei ela provar o leite condensado que eu tava comendo. :oP Falhei feio…

  2. Keiko Disse:
    5 de dezembro de 2012 às 17:06

    Eh bem isso, Fro. Eu tb aprendi essa do “vale por um bifinho uma ova” com uma amiga nutricionista brasileira, especializada em materno-infantil, qdo eu estava gravida do Zack, fui ter uma super conversa com ela de criar filhote vegetariano e tals e um dos ” must NOT do” da conversa foi dar Danoninho. Vendo minhas amigas mães, mais ou menos informadas, o que eu vejo é que o que mata do tal do consumismo e da propoganda eh que no aperto (e vamos combinar, há muitos apertos na vida materna) as pessoas acabam indo no pilot automático, e não questionam. Tipo assim, o Danoninho (ou equivalente) é pratico, vem no potinho, as crianças morrem pra comprar (mesmo nunca tendo visto uma única propaganda) porque tem bichinho, enquanto o iogurte natural (o grego então é campeão em proteina, ta sabendo?) tem que botar no potinho, misturar com fruta ou não e tem no máximo uma vaca chata no pote. Difícil concorrência. O negócio é tentar educar mesmo as crias. Nina daqui, que (ao mau exemplo da mãe) é fanzoca do veneno branco, essa semana que estava doente veio falar pra mim: “Eu não vou comer doce (que Zack estava comendo) porque tem muito açúcar e eu vou ficar mais dodói…” :-) – esperança de que não adianta “vetar”, mas adianta educar :)

  3. Waleska de Lemos Disse:
    5 de dezembro de 2013 às 12:36

    Gente, mandem email para a danone perguntando se pode dar danoninho para crianças de 2 anos… A resposta da empresa (pasmem). NÃO ACONSELHAMOS PARA CRIANÇAS MENORES DE 4 ANOS!
    É puro açúcar e gordura e corante, um lixo alimentar!

    Abraços,

Comente