Quatro motivos para apresentar Carmen Miranda às crianças

Desde que Nina nasceu, quando não estava babando de sono encostado na primeira superfície firme que visse pela frente, o pai cantava para ela uma canção que meus sogros ensinaram a ele quando pequeno. Os versos iniciais são assim: “Lá vem o seu Noé comandando o batalhão, o macaco vem sentado na corcunda do leão…” E a marchinha segue falando dos animais que teriam sido recrutados para dar uma volta na arca bíblica, com pausas para imitar os sons de alguns bichinhos. Achava uma graça, mas ficava arrasada porque nunca tinha ouvido esse troço na vida. Vocês conhecem, gente? Digam que não, por favor!

Daí que eu fui pesquisar sobre essa musiquinha e me deparei com uma gravação atribuída a Carmen Miranda no Youtube. Aprendi a letra e o assistia (ouvia, na verdade) sempre com Nina. Só que internet é arte do cão, né? Uma coisa leva à outra e eu fiquei um tempão vendo vídeos da bonita e fui me contagiando com aquela loucura colorida, as caras e bocas, as coreôs, os figurantes, as viradas de olho, o brilho nas roupas, as mãos frenéticas, o tutti-frutti na cabeça, as letras engraçadinhas e a ousadia de uma estrangeira em fazer conhecida uma republiqueta qualquer da América do Sul na onipotente Roliúde.

Foi então que me veio o clique: “Nina p-r-e-c-i-s-a ver isso”. Me senti na obrigação de compartilhar com ela toda essa lindeza esfuziante. Então aqui em casa é assim: quando só a música pode nos salvar, quando o tédio e o silêncio precisam ser quebrados, chacoalhamos e vibramos ao som da pequena notável. Mas não é só para levanter o astral e fazer a mamãe arfar que Maria do Carmo serve. Acontece que, por trás dos vídeos em que ela aparece, existem pelo menos quatro lições que dona Miranda oferece espontaneamente aos nossos filhos. Daquelas para levar para a vida toda. Me digam se não tô certa:

1)   Alimentação saudável: Essa é fácil! O nada discreto adereço que a moça ostenta na cabeça é uma clara alusão aos benefícios do consumo desenfreado de frutas. Lição aprendida: comer aquela variedade de alimentos lindos e nutritivos faz das pessoas seres sorridentes, dançantes e cantantes. Ah! E capazes de usar mini-blusas fazendo a inveja das recalcadas.

2)   Música divertida: as canções que madame Miranda interpreta são alegres e desenvolvem o ziriguidum, qualidade necessária para gastar a energia praticamente inesgotável dos nossos filhotes. Lição aprendida: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Aliás, tá aí outra pessoa necessária na vida: Dorival Caymmi, cupincha da musa desse post.

3)   Consideração ao sotaque alheio: Carmen Miranda falava inglês com um leve sotaque lusófono. Para as mamães expatriadas como eu, que falam o idioma do local onde seus filhos nasceram de uma forma charmosa (aham), a artista mostra que tudo bem. Lição aprendida: não precisa ter vergonha se a mamãe falar “véuri matchy” (very much).

4)   Respeito à diversidade sexual e de gênero: veja bem, fontes oficiais não confirmam, mas boto a unha quebrada do dedo mindinho da minha mão esquerda no fogo se, na verdade, Carmen Miranda não é a primeira travesti a fazer sucesso internacional. Lição aprendida: travestis merecem carinho, respeito e admiração como as pessoas de qualquer orientação sexual.

“Vinde a mim as criancinhas”

1 ano de Nina

Meu tesourinho,

Esse texto poderia ter apenas duas palavras: “um ano”, acompanhadas de uma sequência de exclamações. E isso já diria tudo, pelo menos para mim. Mas não acho justo que você se depare só com esse tantinho de letra quando for capaz e se interessar por ler isso aqui. Então eu vou tentar dizer o indizível de um jeito que lembra mais sua mãe: cheio de blá blá blá.

Esse ano não passou rápido. Ou passou? Não sei. Ninguém sabe. Têm sido dias tão intensos que, como toda mãe, sinto que convivo com você há anos, há centenas deles, há milhares de eras pré-tudo que se sabe ou que nunca saberemos.

Sempre estivemos juntas. Sempre estaremos. Aliás, desde que você nasceu, me esforço a cada dia para assimilar a ideia de eternidade porque só ela será justa para que eu expresse o volume de sentimentos bons que tenho por você.

O que a sua chegada nos proporcionou é muito, muuuito mais do que seu pai e eu imaginávamos. Esses momentos a três me atropelaram com respostas para perguntas que eu nem sabia que estavam no ar, e deixaram um rastro de tantas outras que eu não tenho ideia de como responder. Acho que essas respostas virão com a nossa convivência. Aliás, não virão. Porque sempre haverá outras perguntas. Uma sequência de interrogações que vão me deixar louca, e portanto viva. Amém!

Falando em “viva”, os dias passam e você vai se mostrando. Para si, que é quem realmente interessa. Eu capto o que as minhas limitações permitem. Porque você se basta, minha filha. Eu sou só a moça que troca sua fralda. O resto é todo seu. Em todo seu imensurável potencial de vida, você se encarrega de Ser. E segue me contagiando. Vou sendo o que nem sabia que podia, pegando carona no seu esplendor; qualidade sobre a qual você não pensa, não interfere, não macula; apenas expressa. Porque é o seu natural. Porque você ainda se aproxima da nossa humana utopia do que é ser livre.

Suas conquistas triviais – rolar, sentar, andar, falar – me desmancham e fazem de mim a mãe, a filha, a irmã, a avó, a namorada, a amiga de todos. Ao testemunhar esses seus momentos, sinto como se fosse cada mulher desse mundo. E espiritualmente unida a todas elas, só sou capaz de querer que o mundo seja bom com elas, com os outros, com todos. Porque todo mundo é o filho de alguém. E o filho de alguém só merece o que for de Bem. O resto é erro. Erro profundo. Num mundo povoado pelos filhos de alguéns, o sofrimento é um estado anômalo, uma aberração que esconde a sua verdadeira vocação. Onde há o filho de alguém só pode haver amor.

Mas que fique claro: não é amor o que sinto por você.

É outra coisa.

Não sei o quê.

 

 

Enquanto busco mais essa resposta, encerremos assim: eu não te amo.

Eu te absurdo!

Feliz aniversário!

O amor nos tempos do cólera

[Atenção: esse post tem conteúdo altamente nojento e pode provocar repulsa em pessoas sensíveis como um dia eu já fui]

–       Tô indo pra casa te dar um apoio no que precisar, viu?

–       Tem certeza de que não vai ter problema com o pessoal do trabalho?

–       Claro que não! Já tô bem adiantado no que tenho de entregar e vou terminar trabalhando de casa.

–       Que bom!

–       Mas e ela, como tá?

–       Acabei de colocar na cama.

–       E fez cocô?

–       Duas vezes.

–       Naquele mesmo esquema?

–       É. Bem líquido.

–       Mas foi muito?

–       Que nada! Bem pouquinho. Naquele esquema da madrugada.

–       Tipo pum molhado mesmo, né?

–       Exato.

–       E a aparência?

–       A mesma. Tipo clara de ovo e com umas partezinhas amarelas.

–       Mas e as sementes de kiwi ainda aparecem no cocô?

–       Que nada! Já foram todas embora ontem mesmo. Junto com aquele cheiro podre. Afe…

–       E ela tomou a parada pra evitar desidratação?

–       Tomou bastante.

–       Ótimo!

–       Ah! Chegou pelo correio aquela encomenda. Fui atender a porta com ela no colo, ela espirrou, passou o fouet que ela tinha na mão no catarro e ficou lambendo enquanto eu pegava a caixa. Fiquei com vergonha do carteiro, mas não podia fazer nada.

–       Hahah Que cena!

–       Olha, eu tô achando que o que a deixou vulnerável assim foram os novos dentes.

–       Ah é?

–       Vi hoje de manhã que os dois molares inferiores estão despontando e a gengiva tá bem inchada.

–       Os incisivos, Camila!

–       Incisivos, molares… O mundo acaba mês que vem mesmo.

–       Tadinha da pequena…

–       É mesmo… Mas, ó, eu tô super tranquila porque ela não vomitou, tá lacrimejando, com a boca cheia de cuspe e tá bem-humorada apesar de tudo.

–       Só espero que ela tenha todos os dentes.

–       Como assim todos os dentes?????

–       É que a gente tinha lido que os incisivos superiores despontam primeiro, lembra?

–       Ah! Lá vem você me enchendo com paranoia. Logo agora que eu tô ficando tranquila. Que merda!

–       Hahhahahah A gente vai amá-la mesmo assim.

–       Para!

–       Quer que eu leve almoço?

–       Quero!

–       Não deixa de separar o lixo das fraldas, viu? Tá super cheio com essa caganeira toda.

–       Já separei.

–       Ó!

–       Oi.

–       Te amo, viu?

–       Eu também. Vem logo.