Ser mãe é…

… calçar-se no escuro para não incomodar marido e filha com a luz e, ao chegar na academia, perceber que cada pé está com um tênis de par diferente.

Nina em “Põe essa colher pra lá”

Seu filho faz seis meses e um dispositivo em seu cérebro é acionado e ele passa a querer comer alimentos sólidos, não é verdade? Mentira! Aqui em casa, por exemplo, dona moça só foi começar a se interessar mesmo por frutas, legumes e coisa e tal lá por volta dos oito meses. Ou seja, somente dois meses depois da idade indicada pela Organização Mundial da Saúde para a introdução de sólidos é que ela passou a crescer o olho quando via uma comidinha vindo em sua direção. E mesmo assim nem sempre. Muitas vezes fingia que nem era com ela. E eu lá no papel de otária boa mãe, tentando fazer rangos diferentes e oferecê-los de modo atraente. Cheguei num ponto em que eu tinha certeza – daquelas absolutamente absolutas – de que minha filha tomaria leite pelo resto da vida. E somente ele. Para todo o sempre.

Embora eu ainda ache que a qualquer momento ela pode desencanar dos sólidos (trauma é trauma, minha gente), eu tenho meus momentos de fé de que ela será aquela criança perfeita, que não come nem muito nem pouco, que aceita todos os alimentos sem reclamar e que vai ter uma rejeição profunda a coisas muito doces, gordurosas e enlatadas e, de quebra, ainda vai virar uma nutricionista focada na cura pelos alimentos e militante da produção sustentável. Mas aí minha fé é abalada pela realidade e a palavra perfeita simplesmente evanesce (verbos pedantes? Trabalhamos!). E que bom, né? Porque a busca dessa perfeição é sinônimo de frustração.

Ia ser muito mais prático (olha aí outra palavra que é pura falácia na maternidade) se ela comesse o que EU acho que ela deveria comer, na hora em que EU acho que ela deveria comer e do jeito que EU acho que ela deveria comer. A verdade é que o apetite do bebê é exatamente como o nosso. Uns dias queremos comer mais que em outros, desejamos sentir esse ou aquele sabor e queremos comer com a mão. Tá, esse último é mentira – pelo menos para a maioria das pessoas -, exceto para a minha finada vozinha, que era adepta da modalidade.

Daí que aqui em casa, as minhas tentativas de “civilizar” a minha pequena à mesa nem sempre dão certo. Nem sempre ela aceita a colher, por mais que queira comer. Ela simplesmente não tá a fim de ter aquele objeto estranho colocado em sua boca por uma mão outra que não a sua. Como ela ainda está longe de saber manusear um talher para fins outros que não coçar as gengivas e eu não sou louca de deixá-la comer papinha com as mãos (o caos desnecessário e ineficaz!), nós aderimos parcialmente ao que os entendidos chamam de baby led weaning, que prevê que ofereçamos pedaços inteiros do alimento. Ou seja, em vez de bater/amassar o rango, basta oferecê-lo ao bebê do jeitinho que gente grande comeria.

Tem mais chance de engasgar? Tem! A sujeira é maior? É! Você fica com a impressão de que o bebê come menos do que se fosse oferecida a papinha? Fica! O bebê vai ficar entalado com um pedaço de carne? Claro que não, você tá ali do lado controlando tudo, sua louca, vira essa boca pra lá!

Mas e quais as vantagens desse “método”?

1. O bebê vai sentir as texturas próprias dos alimentos, não ficando, portanto, restrito à textura única das papinhas.

2. Os alimentos vão poder ser saboreados separadamente com mais facilidade (mesmo que a gente bata tudo separado, as papinhas têm um poder de atração imenso e acabam virando uma coisa só) e isso parece ajudar na construção do paladar e preferências.

3. Nossos filhotes vão estar em contato com alimentos de formatos e cores diferentes, coisa que um liquidificador não permite.

4. O bebê tem sua autonomia e, consequentemente, sua auto-estima estimulada, uma vez que é ele mesmo quem pega o alimento do prato, da bandeja do cadeirão ou da mesa e o leva à boca, treinando, ainda por cima, um movimento essencial para toda a vida.

5. Tem mais coisa, mas aí eu teria de levantar, pegar o livro, ir na página certa e eu tô com preguiça. Beijos.

Dito isso, basta apenas ter o cuidado de dar os alimentos em tirinhas para facilitar o trabalho do bebê pequeno. Para os maiores (lá por volta dos nove meses mais ou menos), já dá pra ir fazendo novos cortes para que eles treinem o movimento de pinça com as mãos (aquele que usa o polegar e o indicador, sabe?).

Aqui em casa, quando Nina tá a fim de comer, é assim: uma parte desce pela colher, a outra parte ela pega com as próprias mãos, corta com seus quatro dentinhos e chupachupachupachupa até ser seguro para descer pela goela. E vamos bem assim.