Conhecendo alimentos sólidos II

No texto anterior sobre introdução de sólidos, eu comentei sobre a maneira como os canadenses sugerem que essa etapa seja feita. Gostei do discurso e tenho agido dessa forma aqui em casa. No entanto, meu problema não consistiu no quê oferecer, mas em como oferecer. Com uma licença poética aqui e outra acolá no texto, o processo se desenvolveu mais ou menos assim:

Nas primeiras tentativas, eu colocava a papinha na colher e a colher em frente à boca dela. E ela, obviamente, por mais brilhante que seja, não sabia o que fazer diante daquele talher com gosma em cima.  Foi então que dei início a uma série de táticas para tentar fazê-la abrir a boca:

1. Como uma demente, eu pegava a colher, levava-a em direção à minha boca, que se abria como uma caverna que escondia a fonte de toda a paspalhice humana, e fingia que comia, mastigando minha saliva e proferindo mentiras como “hum… Que delícia”. Sim, após isso eu esperava que Nina comesse. Mas é lógico que ela não fazia idéia do porquê daquele meu comportamento. Muito menos que ela deveria agir da mesma forma.

2. Resolvi apelar para a felicidade. Afinal, aceitando a recomendação de nutricionistas e pediatras, eu sabia que bebê mal-humorado não iria comer, ainda mais nessa fase em que comer dá um trabalhão danado já que ainda é um aprendizado. Diante de uma Nina calma, porém de boca fechada, eu fazia palhaçadas bem mais dementes do que a performance do item 1. Creiam. Solidária, minha filha ria e, ao abrir a boca, eu metia a colher. Ela, então, expulsava o conteúdo com toda a veemência possível, pois a pobrezinha estava se divertindo e não esperando que a mãe dela, que deveria fazer a coisa certa sempre, lhe enfiasse qualquer coisa estranha na boca.

3. Do riso ela ia facilmente ao choro. Claro! Como uma brincadeirinha, uma canção ou um gesto engraçado virava uma invasão gosmenta na sua boca? A mãe persistente, ao ver a filha de boca aberta chorando, também colocava a colher com papinha na boca. “Vai que ela gosta do sabor, para de chorar e come?” A maternidade não é para todas, não é verdade, minha gente?

4. Tentei uma coisa lúdica e pedi ajuda aos brinquedos. Coloquei, então, em cima da bandeja da sua cadeirinha, alguns brinquedos que ela adora colocar na boca. Assim que ela a abrisse, eu PUM, vinha com a colher. Às vezes ela engolia, muitas vezes, não. A única constante nessa tática é que, ao fim da refeição, além de limpar dona moça, a cadeira, a bandeja, o cinto de segurança, o prato e a colher, eu tinha de lavar os brinquedos a cada vez que ela os jogasse no chão. Não foi prático, não foi funcional, não foi nada.

5. Entreguei os pontos e aceitei o fato de que minha filha só se alimentaria de líquidos pelo resto da vida. A menos no que dependesse de mim. Pedi, então, o reforço do pai, que, como num passe de mágica, s-i-m-p-l-e-s-m-e-n-t-e encostou a colher na boca dela ainda fechada, deixou que ela sentisse o cheiro daquela meleca, se interessasse pelo conteúdo e voilà! abrisse a boca (mesmo que pouquinho) para finalmente “mastigar” e engolir as vitaminas contidas nos legumes batidos.

E graças ao fato de Nina ter um pai com mais de dois neurônios, ela hoje é um nenê que em 30% das vezes sabe que deve abrir a boca quando uma colher aparece na sua frente.

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