Nina em “O pião da casa própria”

Para ler ouvindo:

Colocar Nina para dormir é um exercício de paciência do qual ou sairei zen ou no ponto certo pra viver em sanatório.

Até poucas semanas atrás, deitávamos juntas na cama, eu conversava baixinho (porque desisti de contar histórias por enquanto), cantava uma canção de ninar, fazia carinho, e ela, muito calminha que estava, acabava adormecendo. Era lindo! Sabe aqueles momentos dos quais você tem certeza de que faz tudo certo e de que seu filho crescerá um adulto altruísta e feliz?

Mas ela fez seis meses e teima em fazer jus à sua nova idade. Então aquela hora de dormir, normalmente tão doce, virou a hora do furacão. O relógio acusa o avançar do tempo, o rostinho está vermelho, os olhinhos lacrimejantes coçam, e as orelhinhas também. Bingo! Até a mais atrapalhada das mães sabe que o nenê tá com sono.

Então vamos pra cama? Sim.

Aí você põe a menina de barriga pra cima e ela se vira de barriga pra baixo. Uma vez de barriga pra baixo, ela se vira de barriga pra cima. E de barriga pra baixo. E de barriga pra cima. E de barriga pra baixo. E de barriga pra cima. E seguimos assim até acabarem as reticências do mundo.

A mãe é a coadjuvante paspalha cuja única função é evitar que a menina do gira-gira infinito não caia da cama. O que não quer dizer que ela sempre consiga. Mas menino que não cai da cama não se cria, não é mesmo, minha gente?

Depois de uma boa meia hora causando inveja pra qualquer pessoa com labirintite, Nina fica de bruços, fecha os olhos e a respiração ofegante some. Oba! Por trás das olheiras, a mãe abre os olhos pra confirmar aquela certeza que seu coração já tem: bebê finalmente dormiu. Ao se aproximar daquele rostinho… TCHANAM!!!! Boca banguela escancarada como se risse da sua ingenuidade. Dá pra ouvir o “te enganei, mamãe” que ela me manda telepaticamente.

Mais uns minutos de gira-gira e ela dorme por si só. A mãe está acabada de sono, enganada por um ser de menos de 70 cm e se sentindo uma fracassada por não ter mérito algum no soninho da filha. Ela dormiu porque simplesmente cansou de girar. Mas não importa! O prêmio, que não é uma casa própria, vem mesmo assim. Uma casa alugada que já pode ser arrumada porque agora nenê deixa. Viva!

Pode pedir pra girar de novo?

O mesmo script para todo mundo (ou não)

Você vai avançando na casa dos 20 e o pessoal (o vasto leque de pessoas que inclui sua mãe e o estagiário aleatório da Contabilidade cujo nome você desconhece) começa a perguntar “cadê o namorado?”

[Eu nem vou entrar no quesito homossexualidade para que a conversa não fique ainda mais extensa, então fiquemos no mundo hetero, ok?]

Então as pessoas ao seu redor se preocupam horrores com a sua… é… felicidade conjugal. Não importa se você está alegre da vida aproveitando cada uma das delícias da solteirice. O que conta é o que o pessoal quer para você. Afinal, como ser feliz sem um homem do lado, não é, minha gente? E quem diz o contrário é recalcada.

Até que um dia, você, galinha solteira convicta, se apaixona de um jeito que precisa juntar seus trapinhos djá com aquela criatura. O pessoal muito mente aberta até aceita que vocês não casem assim preto no branco; morando sob o mesmo teto já tá bom demais, afinal o importante é ter um homem ao seu lado, lembra?

O relacionamento segue firme e inabalável. Vocês queimam as fotos dos ex,  adotam um cachorrinho e até fazem um perfil único com o nome dos dois no Orkut (sou vintage?). Tá tudo lindo, tá tudo grude, tá tudo amor, mas o pessoal já tá preocupado: “cadê o filho?”

Se você demorar muito (?), o pessoal vai falar que gravidez depois dos 35 anos é problema para o feto na certa, que casamento sem filho não se sustenta porque é muito solitário e que você só vai descobrir o que é o amor no dia em que parir. Se sua irmã mais nova teve filho, então, aí é que danou-se.

Aí você, que estava só lá vivendo sua vida, sem dar satisfações a ninguém, engravida quando bem quer. O povo então derrama lágrimas de alegria, gritando “aleluia! Aleluia! Fulano não é brocha e Beltrana não tem útero seco”.

Você está assinando os formulários para ter alta do hospital com seu filhote e o pessoal já pergunta “e quando vem o segundo?” 

Quatro anos depois, sob protestos do pessoal, que tanto avisou que a diferença de idade ideal entre os seus filhos deveria ser de dois anos, você engravida de novo. O exame de ultrassom mostra que é um outro menino. Você e o namorido comemoram! O pessoal, mal disfarçando a frustração (?), apressa-se em perguntar: “mas vocês vão tentar uma menina, né?”

Fim.

Se eu tivesse acordado de mau humor, ia usar o blog para me queixar (quem nunca?) de como o pessoal se mete na vida dos outros (meu mimimi mais recorrente nos últimos tempos) e faz de tudo para que você não seja capaz de escrever a sua própria história, pensando o mundo de outro jeito, tipo o seu. Mas estou borbulhando de endorfina, então digamos que esse texto foi só para externar a minha alegria em ver que existe tanta gente que parece intrometida, mas que, no fundo, tem só é um jeitinho todo especial de demonstrar que quer o seu bem.

[Sem ironia, eu j-u-r-o. É verdade! Por favor, acreditem! Só hoje! E digo mais: eu não sou esse poço de intolerância. É sério! Assim… Só com umas 3 ou 4 pessoas muito, muito próximas a mim. Do resto, eu aceito quase tudo!]

6 meses de Nina

Ninosa da mamãe,

Hoje completamos seis meses juntas, nos amando muito e nos estranhando um cadinho. É… às vezes eu fico cansadona de ser a criatura que atende todos os seus desejos e você fica doidinha de frustração porque nem sempre eu acerto de primeira de segunda de terceira de vigésima o que você quer.

Nesse meio ano de amor profundo – sim, porque amor que divide o dia-a-dia não deixa de ter uns arranhões aqui e acolá, mas é inabalável na sua estrutura –, eu não me vejo mais sem ser sua mãe. E, por mais contraditório que pareça, não há nada de sufocante nisso. Ao contrário, eu posso dizer que há mesmo algo de libertador nessa relação tão intensa.

Deve ser por causa do tal amor gigante, vai saber.

Ontem, senhora do seu último dia de 5 meses, como numa despedida confusa, você se alimentou bem menos que de costume, tirou um cochilo imenso perto da hora de dormir à noite, ficou de nhém nhém nhém no parque, golfou horrores no meu primeiro look de verão do ano (isso não se faz!)… Em compensação, nos fez – seu pai e eu – gargalhar até quase perdermos o fôlego com a sua risada banguela. Eram 11 da noite (veja bem se isso lá é hora de pirralhos de meio ano estarem acesos) e, num ato de desespero que só o sono é capaz de criar, inventei uma brincadeira besta (daquelas que chega dá vergonha!) e você m-o-r-r-e-u de rir.

E lá estávamos os 3 em cima da cama rindo pra vizinhança inteira ouvir (viva o isolamento acústico!) na véspera dos seus 6 meses.

Ontem foi lindo! Esses seis meses têm sido lindos!