O que sinto nesse dia da mulher

Eu não sou muito boa com datas comemorativas em geral. Não costumo fazer festa no meu aniversário, tenho uma revoltinha adolescente com o Natal e agora, aparentemente, nem do dia do meu casamento eu lembro mais. E aí tem o Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje. Data necessária. Infelizmente.

Pequena, eu achava de uma babaquice atroz quando, no 8 de março, distribuía-se no comércio flores para as mulheres que passassem. Eu não entendia porque tinha um dia só para as elas. Não sei se Camilinha era um poço de recalque, já que ainda era muito nova para ser considerada mulher e, portanto, teria de esperar até o dia 12 de outubro (uma eternidade!) para ser lembrada pelo seu “status”. Notem que eu não questionava o porquê de haver o Dia das Crianças.

Fui crescendo e me contaram a história trágica das mulheres que morreram queimadas numa fábrica nos Estados Unidos. Depois eu descobri, salvo engano, que o incêndio nem foi no dia 8 de março. Mas isso não importa. Elas fizeram história e são merecidamente lembradas até hoje. Dito isso, minha relação com o Dia Internacional da Mulher era mais racional que afetiva. Eu entendia, mas não sentia. Sei lá, talvez porque eu nunca tenha me visto como mulher, mas como gente.

E aqui cabe uma explicação:  antes que você ache que eu estou fazendo algum autoelogio, vendendo uma autoimagem de ser evoluído, capaz de ultrapassar as barreiras de gênero, eu digo que essa percepção era fruto da mais pura sorte que tive na vida ou da minha total incapacidade de perceber que estava sendo maltratada por ser mulher. E digo mais: essa percepção tem mudado. Aos poucos essa ingenuidade tem dado lugar a uma maneira um pouco mais apurada de perceber a presença da mulher na sociedade. Na maioria dos casos ainda é assim: mulher é mulher e homem é homem. Mas mesmo essa visão um pouco mais sofisticada era mais pensada do que sentida.

Só que eu engravidei.

E engravidei de uma menina.

Pronto! Sem que eu tivesse escolhido, um oito de março profundo surgiu em mim a partir daquele coquetel de hormônios para que minha filha se fizesse. Mais uma vez foi a minha vida que fez isso por mim. É como se eu não tivesse nenhuma participação nisso. Tá, eu me entreguei, eu vivi a gestação o mais intensamente que pude, mas o mérito é daquelas 41 semanas, não exatamente meu. Até um batom vermelhão eu comprei nessa época; logo eu, que mal passo um gloss.

Eu me senti, pela primeira vez na vida, mulher. Que nada! Foi muito mais do que isso, eu me senti, pela primeira vez, unida a todas as mulheres do mundo. Todas elas. As que existiram, as que estão e as que virão. Aquelas das quais a gente se orgulha e aquelas que a gente despreza. As que ficaram em casa e as que queimaram sutiãs. As que amam homens e as que amam outras mulheres. As que sofrem e as que gozam. As que pariram muitos e as que não terão filhos. Eu poderia escrever parágrafos sobre mulheres em situações díspares só para dizer que nenhuma me escapou. Para mim, foi preciso viver um tempo com 2 úteros e 4 ovários para que todas elas passassem a me acompanhar de um jeito mais real, com empatia e admiração. E eu não consigo mais abandoná-las. Sorte a minha porque hoje eu sinto essa data.

Feliz dia intergalático da mulher!

9 comentários em “O que sinto nesse dia da mulher”

  1. gabriela Disse:
    8 de março de 2012 às 11:36

    um brinde aos úteros!
    Hip, hip, úteroooo!

  2. Aline/Line Disse:
    8 de março de 2012 às 12:01

    Lindo, lindo, lindo… Estou com os olhos “inundados”! Você escreveu TUDO!

    Agora… O lance do batom me chocou, amiga!! Rs rs rs. Lembro que eu pedia, implorava, para te ver de batom. Você lembra? Ô, saudade…

  3. Nayra Disse:
    8 de março de 2012 às 12:02

    P@arabéns pelo nosso dia!! Nas palavras de Tia Rita Lee, a mulher não se resume a um objeto de desejo, derruba o mito do sexo frágil e em especial a brasileira seria “mais macho que muito homem”. Porque vamos combinar que não é fácil e nem pra qualquer um…

  4. Vanessa Disse:
    8 de março de 2012 às 12:38

    Puxa… Essa é a mulher Camila… como sempre… adoro seus textos…

  5. Carol Greco Disse:
    8 de março de 2012 às 16:46

    Miloca que texto lindo como se isso fosse novidade né! Parabéns pra nós! Bj

  6. Eduardo Saphira Disse:
    8 de março de 2012 às 19:36

    Esse dilema entre pensar & sentir é bem Fernando Pessoa. Ou será Álvaro de Campos? Ricardo Reis? Caeiro? Ou todos, ou nenhum? Pensando bem, este comentário não faz sentido. Viva Vc. E Nina. E Anita. E todas as mulheres do mundo.

  7. Keiko Disse:
    8 de março de 2012 às 19:55

    Super Miguxa! Finalmente no fim do dia eu leio um texto que me deu vontade de celebrar o dia!! (e nao relacionado a isso – de passar na sua casa pq o saco da Nina ja rasgou e foi substituido 3 vezes! kkkk)

    beijo

    keiko

  8. Vera Riella Disse:
    9 de março de 2012 às 19:11

    Lindo texto, Camila!!!! O que mais me impressionou, foi a sua constatação de estar convivendo com 2 úteros e 4 ovários!! Voltei no tempo e me imaginei assim!! Me senti mais forte!!! Parabéns!!!!

  9. Paulinho Disse:
    12 de março de 2012 às 10:33

    Eu sempre senti o dia das mulheres de maneira especial e diferente, com raiva de receber os parabéns e ter que dizer “pra você também, né, pelo dia da mulher”.

    Mas uma coisa eu sempre soube: as “muleres” são todas loucas…

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