A falácia das canções de ninar

Como todas as mães, eu compus inúmeras canções de ninar. Sim, porque a gente não se contenta com as clássicas. E nem tô falando de excluir completamente as tenebrosas como “Boi da cara preta”. Acho que as composições maternas vêm da necessidade de incluir nelas o nome dos nossos filhos com o único objetivo de hipnotizá-los. Isso! Mães hipnotizam seus bebês. Ou tentam.

Daí que nessas canções personalizadas, os nomes dos nossos filhos estão sempre acompanhados de predicados como “fechar os olhinhos” e “contar carneirinhos” ou, se são 3 da manhã, vale um versinho mais contundente como “durma agora por tudo o que há de mais sagrado no quadrante alfa antes que eu enlouqueça e saia quebrando tudo por aí”, acompanhado de um sem fim de lágrimas (da mãe, obviamente).

Mas enquanto a pobre mulher usa toda a sua criatividade musical, insistindo numa afinação que simplesmente não possui, desafiando os princípios básicos da métrica e destruindo rimas, a criança está de olhos arregalados no berço, cheia de energia, com uma vontade louca de brincar. E, sim, a mãe adora brincar com aquele trocinho de pouco mais de 4 kg, mas no contrato mãe-bebê, essa atividade é terminantemente proibida em horários não convencionais.

Por que será que os nossos filhos sempre ignoram essa cláusula? Por que? POR QUEEEEEEEEEE?

Eu, a mulher-panda, tentando colocar Nina pra dormir.
Não há corretivo que dê jeito nessas olheiras!

 

O que dizer às crianças sobre o Natal se você não é religioso…

…e/ou tem questões mal resolvidas com Papai Noel?

Eu não cresci num ambiente religioso. Embora batizada na igreja católica quando bebê – muito mais pela simples repetição de uma tradição do que por convicção religiosa, creio eu –, nunca frequentei a santa igreja, nem fui (des)estimulada por meus pais a seguir este ou aquele credo. No entanto, mesmo não tendo uma religião herdada da família, sempre comemorei o Natal. Amava estar com meus primos, dormir tarde, comer coisas diferentes e, obviamente, receber presentes.

Aí a adolescência chegou e eu fiquei intragável questionadora. Continuava feliz em receber presentes (veja bem o golpe), mas ficava incomodada com esse negócio de usarem as populares festas pagãs do solstício de inverno do hemisfério norte e dizerem que foi a época em que Jesus nasceu. Nada contra o nazareno – pelo contrário, me amarro! –, mas não consegui me libertar dessa pulga atrás da orelha. Pra piorar, ainda tem o barbudo da Coca-cola, que não tem nada a ver com os pagãos nem com os cristãos.

De modos que na minha cabeça essa festa é assim: não me recuso a comemorar a data, ou seja, a estar na companhia de quem gosto (tem coisa melhor?), comer umas comidinhas caseiras e, quando tenho grana eventualmente, dar presentes. Aqui em casa o combinado entre marido e eu é que não compramos nada um pro outro. Sem choro, sem drama. A vida segue linda.

Mas aí eu pari, né? E, embora saiba que passamos pros filhos aquilo no que acreditamos, eu penso no convívio social. Então me vejo num dilema ridículo: serei eu a monstra a dizer a minha filha que Papai Noel non ecziste? Será que é tão nocivo assim deixá-la acreditar por um tempo que é possível que um homem dê conta de, numa única noite, entregar sozinho presentes para todas as crianças do mundo (exceto as miseráveis), a bordo de um trenó que voa puxado por renas? Ainda bem que não preciso pensar nisso esse ano.

De qualquer maneira, feliz natal, feliz sábado, que Jesus te abençoe, que Papai Noel te encha de presentes, sei lá!

Atire o primeiro rolo de papel higiênico…

… a mãe que nunca  foi ao sanitário com o bebê no colo.

10 coisas que descobri na gravidez

  1. Mulheres grávidas se olham. E muito. Pra tentar adivinhar de quantas semanas está a outra? Pra saber se sua barriga é normal? Pra pegar dicas de como a outra consegue se vestir sem parecer um botijão em combustão? Sabe-se lá por quê! O fato é que elas se olham. Talvez isso aconteça porque exista um magnetismo entre os bebês morando nos ventres desconhecidos, que se traduz num encontro de olhares das mães. Vai saber…
  2. Os homens também olham. E MEXEM com as grávidas. As cantadas são menos… é… diretas, mas elas existem. Daí que rola um sentimento meio bipolar de “me respeita que eu sou mãe de família” ou “oba! Vem que tem Tô gatinha”.
  3. Sua gravidez passará a ser o assunto preferido das pessoas. Sim, A SUA gravidez estará na BOCA DO POVO e não há nada que você possa fazer pra impedir isso. As pessoas vão falar se sua barriga ficar grande ou pequena, se seus pés incharem ou não, se seu nariz crescer ou não, se seu quadril aumentar ou não, se você ganhar muito ou pouco peso, se seu rosto manchar ou não, se seu cabelo ficar mais brilhoso ou não, se sua barriga ficar pontuda ou não, se você quiser saber o sexo do bebê o quanto antes ou preferir ser surpreendida na hora do parto, se você optar por uma cesariana com o médico da moda ou se quiser ter seu filho na água entoando mantras…
  4. Mas não para por aí. As pessoas se ocupam também do seu pós-parto. Elas vão falar se você quiser contratar uma babá, se você preferir inscrever seu filho numa creche, se você optar por largar seu trabalho, se você resolver colocar o berço do seu filho no seu quarto, se você decidir contar com a ajuda das avós ou não, se você quiser/não quiser/não puder amamentar seja por um período que faz sentido pra você ou pra Organização Mundial da Saúde, se você ler muitos livros sobre gravidez e maternidade ou não ler nenhum, se você, se você, se você… E tudo isso, minha cara, sem você sequer ter feito uma mísera pergunta ou pedido alguma sugestão. Qualquer pessoa pode se sentir à vontade para lhe dizer como se comportar na gravidez ou o que fazer da sua relação com seu filho. Ou seja, ter intimidade com a grávida não é um critério pra despejar opiniões. Elas simplesmente vêm, as pessoas e suas opiniões.
  5. Muita gente quer tocar na sua barriga. Muita!
  6. Não ache que só porque você está com um ser humano inteirinho hospedado na sua barriga, comprimindo seus pulmões, inchando suas pernas e espremendo sua bexiga que as pessoas vão se levantar pra você sentar em ônibus e metrôs. Mesmo se você morar num dito país civilizado  como o Canadá. Você e seu barrigão vão entrar nos ditos cujos e as pessoas vão continuar lendo seus livros ou jogando Angry Birds nos gadgets da empresa do finado Steve Jobs. Daí ou você se segura firme pra não cair e segue, em silêncio, rogando praga em cada uma daquelas pessoas que não te cedeu um assento ou faz um escândalo e reivindica seus direitos. Ou chora. Vai de cada uma.
  7. Algumas pessoas acham que você não tem outro assunto na vida e só te abordam pra falar da gravidez. É bem verdade que aquele serzinho crescendo no seu bucho te toma de uma maneira inquestionável, mas você ainda é capaz de emitir uma opinião sensata sobre as últimas decisões do G-20 ou discorrer por horas sobre a fofoca que leu num site imbecil sobre aquele ator claramente gay que insiste em fazer truque saindo com mulheres.
  8. As últimas semanas da gravidez, aquelas decisivas depois da 37a, em que seu bebê já pode nascer sem ser considerado prematuro, costumam durar muito mais do que os dois trimestres anteriores juntos. É isso mesmo! O que faz com que sua gravidez leve, na verdade, uns dois anos. As tais 40 semanas são uma lenda contada por parteiras e obstetras que só querem enganar as mulheres. Existe um pacto silencioso entre profissionais e mães, mas eu tenho um compromisso com a verdade, então, ó: vai por mim, é pegadinha!
  9. Uma gravidez não é feita só de gente que mete o bedelho na sua vida, que finge que você não existe no transporte público ou que mente pra você. Se você tiver sorte como eu, esses episódios serão minoria. Nesse período especial da sua vida, muita gente também vai te deixar feliz lembrando de você sempre que vir um vídeo fofo (ou louco) de bebê; telefonando/mandando e-mail/SMS/recadinho no Facebook pra saber como você tá, ou melhor, como vocês estão; comprando/doando/emprestando coisas pro seu filho; compartilhando textos e experiências pessoais sobre gestação e maternidade, sempre respeitando o seu ponto de vista (mesmo que vocês discordem completamente); te enchendo de carinho, seja com palavras ou gestos; não deixando você lavar nem um copinho nas festinhas com os amigos; mostrando ansiedade autêntica pela chegada do seu bebê;  e por aí vai.
  10. Uma experiência tão complexa quanto a gravidez pode te ajudar a separar o joio do trigo. Fora, mas principalmente dentro de você. Aproveite!

1 mês de Nina

Há um mês encerrou-se a imensa espera de 41 semanas e 1 dia pra te ver, te tocar, te cheirar. Naquele 15 de novembro, você nascia, e sua mãe também. Bom, é verdade que você nasceu prontinha, enquanto sua mãe se forja aos poucos. Tenhamos paciência!

Devagarzinho, o furacão dos primeiros dias dá lugar a uma relação cada vez mais íntima entre nós duas. Vou entendendo melhor seus sinais, aprendendo a diferenciar seus chorinhos na tentativa de te deixar confortável.

E me derreto cada vez que você me olha nos olhos, como se me dissesse que lembra que, até pouco tempo atrás, era dentro da minha barriga que você morava. Mas aí você fica vesga, põe a língua pra fora cheia de leite, solta um pum daqueles bem altos tudoaomesmotempoagora e eu percebo que aquela troca de olhares foi mais emocionante pra mim do que pra você.

Daí que a nossa convivência fez a palavra amor ganhar um novo significado pra mim. Antes de você eu amei outras pessoas, claro. Felizmente! E ainda amo. Amo muito muita gente. E quero, sinceramente, que cada uma delas seja feliz. Mas com você é diferente; eu PRECISO que você seja feliz. Do contrário, eu mesma não serei.

Vai um pedaço de cheesecake aí?

A farsa do primeiro sorriso

Sua filha tem menos de 1 mês e ela sorriu. Você não esperava isso até, sabe-se lá, o 3° mês, talvez? Mas ela sorriu. Sim! Numa conversa com o pai. Vejam bem, não foi um sorriso fruto do total descontrole muscular próprio dos recém-nascidos. Foi a mais legítima interação pai-filha, cês não tão entendendo.

Depois desse sorriso, nosso lar se encheu de amor. Os pais não acreditavam que ganharam (tá, o pai ganhou) esse presente maravilhoso, uma lembrança que nunca se apagará, uma demonstração de felicidade genuína, que vem da alma blá blá blá… Até que, dois dias depois, aquele mesmo sorriso de “interação legítima” é direcionado com mais entusiasmo ainda à manta laranja do sofá.

Romance é pra quem pode

11 e meia da manhã de uma segunda-feira, exalando o azedume de sucessivas golfadas no ombro, ainda de pijama, com uma recém-nascida pendurada no sling e o cabelo d-a-q-u-e-l-e j-e-i-to, eu vou atender a porta. Um rapaz tem um arranjo de flores nas mãos e me pergunta se eu sou Camilá Nové. Resposta afirmativa, ele me entrega aquela lindeza. Leio o cartão: marido carinhoso mandou flores pelo nosso aniversário de casamento.

Eu tremo.

Pego o celular e ligo pra ele, aos prantos, pedindo perdão por ter esquecido do nosso dia. COMO ASSIM EU ESQUECI? É… Esqueci completamente. Esquecimento digno de Oscar. Mané Oscar! Esquecimento digno de um Nobel. É… Virei uma monstra insensível! A (falta de) rotina de Nina me absorveu de uma forma tal que eu simplesmente apaguei esse dia da minha mente.

Inconformada com o meu esquecimento, pergunto:

– (Gaguejando) Quando você lembrou da data?
– Semana passada.
– Mas por que você não falou comigo, já que lembrou?
– Ah! Por que eu queria fazer surpresa!

A conversa segue. Eu continuo chorando de culpa e de alegria pelo companheiro maravilhoso que tenho até que pergunto:

– Mas por que você deixou pra mandar as flores hoje?
– Ué! Porque é hoje o dia!

Diante dessa resposta, eu gargalho e quase acordo a bebê no sling. Do outro lado da linha, o marido, já acostumado à naturalidade com a qual sua mulher alterna entre “choro compulsivo-gargalhada histérica ad infinitum”, pergunta:

– Você tá rindo de quê?
– (Engasgando com a risada) É que nosso aniversário foi sábado da semana passada.

Começando

Foi proclamada a república de Nina.

É assim que serão pra mim os próximos 15 de novembro depois de 2011: o dia em que minha filha finalmente veio pros meus braços. Que dia! O dia!

Claro que o fim do império brasileiro (que loucura o Brasil ter tido imperador, diz aí!) continuará me tocando, mas n-a-d-a será capaz de me emocionar quanto o nascimento da minha pequena. Tá, talvez quando ela me chamar de “mãe” pela primeira vez, equilibrar-se sobre as duas perninhas e andar, começar a ler e escrever ou ganhar na mega sena e deixar essa bolada na minha mão, eu serei tão feliz quanto, mas, por enquanto, tá difícil pra concorrência. Daí que eu preciso escrever sobre o que vem depois disso. E, claro, sobre o que se deu antes, apesar do atraso. Então é isso: por conta dessa felicidade – e outras razões – criei esse espaço. Seja bem-vindo(a)!

Ufa! Acabou a responsabilidade de escrever o primeiro post. Nem foi tão difícil assim… Até porque responsabilidade mesmo é saber o que fazer pra acalmar o choro de uma pessoinha que mede pouco mais de 50 cm.