Carta para Amy Sherman-Palladino

Montreal, 28 de agosto de 2015.

Querida Amy,

Eu sou só mais uma das milhões de fãs do programa que você criou. Eu amo aquele negócio lá. Eu lavo os pratos vendo Gilmore Girls, eu preparo as refeições vendo Gilmore Girls, eu dobro as roupas que tiro da secadora vendo Gilmore Girls. Minha casa basicamente tem algum nível de organização e higiene graças a Gilmore Girls. Só isso já bastaria para eu escrever esta carta para você. No entanto, há mais a dizer, Amy, muito mais. Acontece que essa não é só uma carta de agradecimento. Na verdade, eu quero lhe pedir algo. Não, a gente não se conhece. Sim, eu quero lhe fazer um pedido.

Eu ainda não tinha minhas filhas quando assisti a todas as temporadas pela primeira vez. Mas tinha minha irmã, que as viu comigo e, na minha cabeça, eu era Lorelai, e ela, Rory. Nós nunca conversamos sobre isso porque, né, que v-e-r-g-o-n-h-a, mas eu me sinto na obrigação de abrir meu coração para você, Amy. É que a cumplicidade infinita que unia mãe e filha no seu show me contagiava de maneira tal, que eu precisava reproduzir aquilo com alguém, nem que fosse na minha imaginação, e com minha irmã.

Muitos anos se passaram, eu pari duas delicinhas cremosas e voilà, sinto nas minhas vísceras distanciadas pelas gravidezes, que não vale à pena ser mãe-e-filha – mãe-e-filhaS, no meu caso – se não houver o mesmo nível de comprometimento mútuo que Lorelai e Rory tinham. É, Amy, você criou um padrão para o exercício da maternidade. Altíssimo, diga-se. Mas, quero acreditar, alcansável, mesmo para uma senhorinha confusa feito eu. Tenho batido muito a cabeça para fomentar aquele ambiente de amor e respeito que as duas tinham.

Não bastasse o exemplo do prazer que é viver em simbiose profunda, você ainda criou Stars Hollow. Covardia aquele lugar, hein? Eu, como os milhões de fãs do programa, também quero morar lá. Me comprometo a ir a todas as reuniões do município (quem em sã consciência perderia tais encontros?) e a ser voluntária em todas as quermesses, feiras e comemorações cívicas. Você tem a minha palavra, Amy! Oi? Não, pera… Acho que a confusão entre ficção e realidade atingiu um outro nível nesse parágrafo. Por favor, Amy, ignore-o.

Juro que logo chegarei ao motivo real desta carta, mas antes preciso dizer que… M-e-u-D-e-u-s! Como você criou Kirk? Sério! Olha! Melhor personagem da teledramaturgia interplanetária. Kirk é indescritível, indomável, impossível! Vou fazer mais uma confissão aqui, viu, Amy: eu até evito assistir qualquer outra coisa da qual o ator que fez Kirk participe. Não é por nada, não. Eu só não quero macular aquele rosto com qualquer outra personalidade fictícia. É que em perfeição a gente não mexe, só se deixa arrebatar.

Bom, chegou a hora de pedir aquele algo a você, lembra? É o seguinte: você fez um bem danado à humanidade colocando na tão desgastada televisão um amor incomparável entre duas mulheres. E aí reside um problema. Mas não pelo alto padrão criado porque, como já disse, eu realmente acredito que, com um empurrãozinho, dê para chegar bem perto daquele paraíso ali. Sim, eu sou uma boboca que acredita no amor, eu sei. O problema é que são duas mulheres (calma, migas feministas, deixem eu concluir o raciocínio).

São duas mulheres, Amy. Tá. Na primeira temporada Rory tem 16 anos, mas não podemos ignorar a maturidade da menina, que, forçando só um pouquinho a barra (me alivia nessa, vai?), pode muito bem já ser considerada adulta. De modos que o vazio deixado pela série sobre a infância de Rory é um dos grandes mistérios da vida. Mães de todo o mundo (tá, só eu por enquanto! Mas certamente outras me acompanharão nesse movimento) se perguntam como Lorelai lidou com a filha aos 2-3 anos para que, aos 16, elas vivessem daquela forma tão sublime.

Então, cara Amy, caso você concorde em dar continuidade ao programa (e eu sei que sempre aparece uma proposta aqui e ali), por favor, não aceite o caminho mais fácil de fazer uma sequência. Faça uma prequel (Senhor! Acabei de descobrir que tentaram aportuguesar esse termo como “prequência”. Estou em choque!). Fale sobre os primeiros anos de vida de Rory, Amy. Sério! Você tem um compromisso com a espécie humana. Amy, só você tem o poder de revelar o segredo que vai salvar famílias, que vai colocar sorrisos constantes nos rostos de mães cansadas, que vai fazer desse planeta uma encubadora de amor para toda a galáxia.

A nova etapa do programa pode se chamar “Gilmore Girls: The Toddler Years”. Por favor, Amy. Por favor. Eu nunca te pedi nada.

Com carinho, da sua fã,

Camila.

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!

A carinha de Lorelai de quem quer revelar tudo!

A felicidade estampada e esfregada na cara

Dando um rolé hoje mais cedo com a pitica no canguru, encontrei uma conhecida que tem dois filhos da mesma idade das minhas meninas. Ela é loira, alta, magérrima, rica e francesa. Eu tô desempregada, numa crise profissional sem precedentes, me especializando em assustar crianças e idosos na rua com minhas olheiras, e prestes a revelar ao mundo que é possível, sim, sobreviver sem respirar, se disso depender a aparência menos desarmônica das banhas na minha barriga.

Ela me cumprimenta sorrindo:

– E aí? Flora tá bem?

– Tá, sim, tá ótima!

– Ela come bem?

– Nada! Coloco tirinhas de alimentos pra ela se servir, mas ela prefere esmagá-las e passá-las de uma mão pra outra, ainda não entendeu que deve colocar na boca.

– Faz como eu. Eu tô dando papinha de legume. Tá funcionando super bem.

– Eu tô tentando dar papinha de cereal, mas ela empurra com a língua. Quando algo finalmente toca a garganta, ela tem ânsia de vômito…

– Ah! Eu tenho muita sorte! Meu filho come super bem! Ele come muito de tudo o que eu ofereço… Mas e Flora? Tem dormido bem?

– Ela acorda pelo menos uma vez por noite. Às vezes, duas. E o seu bebê?

– Ai, ele dorme a noite t-o-d-a. E dorme sozinho. Eu coloco ele no berço às 20h e ele adormece por si só. Acorda às 5h, eu dou peito e, quinze minutos depois, o coloco no berço e ele só acorda às 8h. Olha que maravilha?!

Eu sorri meu melhor sorriso bufa, numa mistura de “que inveja!” e “onde foi que eu errei?”, e acho que uma lágrima ensaiou escorrer pelo meu rosto porque ela simplesmente parou de falar do filho dela.

– Então, tá. A gente se vê. Vamos marcar uma ida ao parque quando a neve toda derreter, viu?

– Claro!

Assim, parabéns pra ela, felicidades pra família dela, quero muito botar nossas crias pra brigarem brincarem no parque, mas, pôxa… Precisava ser tudo tão perfeito assim?

 

 

O parto de Flora

Há dois dias da data prevista para o parto, entre paradas para ver as vitrines e fazer xixi (adeus, bexiga!), caminhei 3 horas e meia pelo centro da cidade. Andaria outras 3 horas e meia se fosse necessário, já que energia não me faltava.

Voltei para casa e, logo depois do almoço, as contrações de treinamento que sentia há dias deram lugar a contrações doloridas. O intervalo entre elas era mais louco do que os meus pensamentos e a duração, mais inconstante do que os meus sentimentos. Passei a tarde toda assim, até que à noite perdi um coágulo de sangue. Como ele era relativamente grande e eu tinha passado por uma cesárea há dois anos, tanto a doula quanto a enfermeira plantonista da maternidade onde teria minha filha me sugeriram que fosse ao hospital dar uma olhada.

Peguei marido pela mão e fui me despedir da mais velha, que teve seu sono interrompido pela movimentação. Ela estava em sua cama e, ao saber que sairíamos no meio da madrugada, ela chorou. Meu coração partiu, mas havia alguém no meu útero precisando mais de mim naquele momento. Confiei-a a minha mãe e fui; levando a barriga, mas deixando meu coração em casa com ela. Essa seria só a primeira vez, de tantas, que teria de deixá-la em segundo plano. Mas falemos sobre isso depois.

Ao chegar ao hospital, fui para a sala de triagem. Fui examinada, passei um tempo tendo minhas contrações monitoradas, mas ainda não era hora. Ainda não era A HORA. Voltamos para casa, marido, a pequena na barriga e eu.

A terça-feira chegou, anunciando a véspera das 40 semanas de gestação, e trouxe consigo mais contrações doloridas. Além das dores (absolutamente suportáveis), sentia que ia perdendo um pouquinho de líquido. Beeeeem pouquinho. “Não pode ser a bolsa que estourou! Bolsa quando estoura é que nem na novela, né? É aquele aguaceiro.” Sabe de nada, inocente. A noite chegou e eu continuava assim, perdendo um cadinho de líquido transparente aqui e ali, e sentindo dor num ritmo cada vez mais apertado e menos irregular.

Depois de conversar com a doula e a enfermeira plantonista sobre o que vinha sentindo durante todo o dia, fomos para o hospital mais uma vez. Naquela noite, não seria eu a colocar Nina para dormir. Ela estava em sua cama, de pijama, tomada banho e segurando um de seus livros. “Filha, mamãe vai para o hospital porque acho que hoje é o dia de buscar sua irmã, tá?” “Tá bom, mamãe, eu vou ficar aqui e não vou chorar”. Chorei eu, então. De orgulho daquela menina que, mesmo tão pequena nos seus dois anos, parecia saber que eu precisava de sua bênção para me sentir mais tranquila e poder cuidar da outra que estava por vir.

Tudo ia bem no carro até que na porta do hospital, quando descíamos do táxi, meu aguaceiro de novela. Chuáááááá! Era a bolsa, rompida. “Eita porra!!!” Eu ria. Na sala de triagem um exame rápido confirmou: “é mesmo líquido amniótico que você está perdendo. Essa noite você fica conosco”, disse a enfermeira com um sorriso. Levantei da maca para ir até a sala de parto e mais novela, mais aguaceiro, mais perto da hora de pegar a pitica nos braços.

Já na sala de parto, tendo minhas contrações e os batimentos da bebê monitorados o tempo inteiro (dos pequenos inconvenientes de ter passado por uma cesariana anteriormente), passamos um susto. Num determinado momento, nossa menininha na barriga teve muita dificuldade de recuperar seus batimentos cardíacos entre uma contração e outra. Se aquilo acontecesse novamente, teríamos de partir para a cirurgia.

Era quarta-feira, manhã das 40 semanas. O risco de ir para a sala de operação parecia ter passado e a porta da sala de parto se abriu. Veio juntar-se a nós nossa doula. Ela trazia nas mãos seu café e um sorriso. Nos abraçamos, conversamos e eu ia levando o trabalho de parto numa boa, anestesiada, é verdade, mas não a ponto de não sentir quando meu corpo ia fazendo a sua parte. As contrações aconteciam e eu as sentia, mas sem o peso que eu não conseguia carregar.

Acho que passei 80% do trabalho de parto de olhos fechados. Conversava, ria, chorava, sentia dor, sentia alívio, vivia tudo de olhos fechados. Era a minha bolha dentro da bolha. Marido e doula cuidavam de mim e trabalhavam para que eu ficasse o mais concentrada possível naquela tarefa tão grandiosa. Eu pude, então, acessar um lugar que era só meu. Veja bem, nem era meu e da minha filha. Era meu mesmo. E aquele lugar só meu, que eu só cheguei porque me entreguei, porque confiei, porque estava sendo cuidada, era inimaginavelmente bom.

O tempo foi passando e eu estacionei nos 6 cm de dilatação. “Droga!” Quer dizer, droga mais ou menos, eu já estava feliz por ter entrado em trabalho de parto naturalmente, em ter perdido minhas águas – como se diz em francês –, em poder ter sentido aquela dor que não é de morte mas de vida… No entanto, o fantasma da cesárea me rondava de novo, pois foi aos 6 cm que meu colo do útero parou e minha primeira filha, então no bucho, entrou em sofrimento fetal.

Nesse momento, a doula sugeriu que eu fosse para a bola de pilates. Lá fui eu sentar naquela esfera vermelha, tendo marido sentado (?), agachado (?), sei lá! logo atrás de mim, me suportando, me abraçando, me segurando, me beijando, tocando a região do meu sacro com uma das mãos cada vez que uma contração vinha (que alívio que isso me dava!).

Na minha boca de vez em quando aparecia um canudo, de onde saía suco de laranja. Era a doula me nutrindo. “Mas eu quero mastigar gelo”, dizia a grávida de olhos fechados. E fez-se gelo no copo. A sensação que eu tinha era de que se eu pedisse um mamute cor-de-rosa, coberto em ouro, que soubesse cantar “Beijinho no ombro” em aramaico, marido e doula o trariam para mim. Eu não tinha preocupações, eu não tinha medo, eu não tinha pressa. Eles fecharam hermeticamente a bolha, aquela bolha que era nossa. A que era só minha foi vedada pelas minhas pálpebras, a materialização da minha entrega.

Uma hora e meia pesando meu corpo sobre o do marido naquela bola, eu voltei para a cama e tive a dilatação avaliada pela minha médica de família (residente) e sua orientadora. Elas disseram algo e marido e doula pareciam felizes. A grávida cansada, sentindo dor há dois dias, não entendia aqueles sorrisos. “O que aconteceu?” “Você está com dilatação total, Camila. Seu colo está completamente dilatado, aberto, pronto.” “Sério???? Vocês estão falando sério? Peraí! É verdade?”

Sim, era verdade.

E eu ri. E eu chorei. Chorei porque ia ter meu parto vaginal depois de ter vivido uma cesárea provocada por uma indução que só depois soube ser desnecessária. Chorei porque logo teria minha segundinha nos braços. Chorei porque eu voltaria para casa mais cedo para estar com minha mais velha. Chorei porque sentia que eu tinha dentro de mim todas as mulheres do mundo que quiseram parir pela vagina mas não conseguiram. Chorei porque, ao contrário do que uma cesariana me fez acreditar, meu corpo era capaz de parir. Chorei porque todo medo do parto desconhecido havia sumido.

Como toda a reserva universal de alegria parecia estar naquelas lágrimas, as contrações pararam. Simplesmente assim. Eu era pura adrenalina. E adrelina não ajuda menino a sair.

Sem contrações, fiz um pouco de força para ver se o corpo entendia que era hora de retomar os trabalhos. Não surtiu efeito. Só é hora de empurrar quando é hora de empurrar. A meninica no bucho ainda precisava descer um pouco mais, aparentemente. A gestante cansada não conseguia e, sobretudo, não queria andar, mas era preciso. Marido e doula, então, seguraram minhas pernas e as movimentaram simulando uma caminhada enquanto eu me mantinha deitada na cama. E assim foi por alguns minutos. Até que as contrações voltaram. E segui empurrando, a cada sinal do corpo. E me cansando, e me desanimando e sentindo dor.

Duas enfermeiras entraram no quarto trazendo os instrumentos de praxe para uma eventual necessidade. E eu só queria que elas sumissem. Exausta, com dor, aos 45 do segundo tempo, eu resmungava, de olhos fechados: “eu não quero que ela nasça agora.” “Por que?” “Porque eu vou ter de cuidar dela quando ela sair, mas eu quero dormir. Eu tô com muito sono.” “A gente cuida dela por você.”

Era tudo o que eu precisava ouvir.

Deitada sobre o meu lado esquerdo, tendo a doula à direita puxando minha perna contra minha cabeça cada vez que uma contração vinha, e marido assistindo tudo de camarote, senti sair parte da cabeça. “Eita porra!!!” A médica, como quem se depara com a coisa mais simples e natural do mundo, delicadamente usou o indicador para puxar o cordão umbilical que estava enrolado no pescoço da menininha. Mais um pouquinho de força e saiu a cabeça inteira. Mais uma contração e Flora revelava-se ao mundo, com seus 52 cm e 3,151 kg. Foi trazida pelas mãos do pai, diretamente da vagina para os meus braços. Ela estava calma, roxa e me fitava de olhos bem abertos. Não choramos, nem ela nem eu.

Toda felicidade dos mundos estava ali naquela tarde. As cortinas da sala de parto abertas, deixando o sol entrar. E eu forte outra vez, pronta para materializar sozinha o tal mamute, se assim fosse necessário.

Dois anos, os terríveis?

Nina fez dois anos aos 18 meses. Explico: aos 18 meses ela só tinha 18 meses mesmo, aquele do calendário, mas a tal transformação com um quê de fúria que dizem acompanhar a chegada dos 2 anos chegou mais cedo, bem nessa época aí.

Na prática, isso equivale a dizer que a bebezinha de 1 ano e meio, que até então era naturalmente muito dependente e vivia quase que inteiramente sob os mandos e desmandos do papai e da mamãe, entendeu a força do “não” e passou a aplicá-lo com frequência.

– Filha, vamo comer?

– Não.

– Tá na hora de trocar de fralda, vamo?

– Não.

– Pinduca, vamo tomar banho!

– Não.

Muitas vezes o “não” saía por sair. Ela respondia “não” a um chamado e imediatamente depois fazia o que lhe havia sido proposto (santo eufemismo para ordenado hohoh). Mas o “não” estava presente. E com o tempo ele foi ganhando ainda mais frequência e força. A menina foi quebrando a casca da bebezisse e mostrando a pessoa-criança que vinha sendo forjada ali dentro.

Junto com os dentes cada vez mais numerosos, os cabelos mais cheios, a altura ainda mais impressionante, as feições um pouco mais amadurecidas, vem a mudança interna, sutil e que, sim, pode ser entendida como terrível. Não acho injustificada a alcunha de “terríveis 2 anos”. É um choque. Aquela doçurinha ganha uns toques de azedume e a dinâmica dentro de casa precisa mudar.

E mudou.

Aqui negocia-se. Claro que há coisas que são inegociáveis, exemplo: atravessar a rua sem dar a mão. Mas, em geral, o pai e a mãe da menina de 2 anos e 5 meses completados hoje, esforçam-se para levar em consideração, com o máximo de respeito possível, a sua opinião. E seguimos entendendo que nenhuma relação sólida se constrói sem empatia. Se nem eu puder entender que para a própria Nina é difícil deixar, quase que de um dia para o outro, de ser um bebê e passar a ser uma criança (um ser mais disperto para as coisas desse mundo, com desejos e sentimentos que se atropelam), eu não sei o que será de nós.

É cansativo em alguns momentos receber tantos “nãos” – para todos os envolvidos na história –, mas menos dolorido porque vivemos cultivando “sins”. Sim para as brincadeiras juntos, sim para a leitura repetidas vezes dos mesmos livros, sim para dormir agarrados, sim para as refeições juntos à mesa, sim para idas ao parque, sim para tanta cantoria, sim para beijos-abraços-chamegos…

No meio de tanto “sim”, os “nãos” ganham ares de exceção. O que tira um pouco o peso dos pais, que não precisam inventar tantas formas de contornar os conflitos; e da menina, que acaba cooperando porque entende, do jeito dela, que para cada vez em que é contrariada há um sem fim de “pode, sim, meu amor”.

Crescer é terrível. Terrivelmente lindo!

Neologismos

A mocinha minha filha fala fala fala sem parar. Repete a última palavra de praticamente todas as frases que o pai e eu proferimos, mistura sem conflitos aparentes francês com português numa mesma sentença e, para minha surpresa, cria suas próprias palavras.

Antes de contar o episódio que deu origem a esse texto, é preciso que se faça uma observação. Não é incomum que quando se fala algo sobre o pai, fale-se o mesmo sobre a mãe. Explico com exemplos: à mesa, Nina aponta para a cadeira onde sento e diz “mamãe”, e automaticamente aponta para a cadeira do pai e diz “papai”. É assim também quando, ao dar seus ~lindos~ gritos, eu digo: “Nina, não precisa gritar, assim dói o ouvido da mamãe”. Imediatamente ela aponta para os ouvidos do pai (fazendo cara de dor, claro) e diz “papai”. Ou seja, na cabeça dela, algo que envolve a mãe, envolve o pai e vice-versa.

Agora, esse comportamento inclusivo chegou à forma como as palavras são construídas. O negócio ganhou em complexidade, minha gente. Esses dias estávamos os três no sofá, quando o pai, comentando com ela justamente sobre essa sua habilidade de repetir tudo o que falamos, disse: “filha, você está uma papagaia”. Ela absorveu a informação, pensou um pouco, apontou pra mim e disse: “mamagaia”.

#chupaguimarãesrosa

A pequena bilíngue confusa

Dia desses, líamos um livro e eu perguntava a Nina onde estava tal imagem. Até que chegamos ao ponto da discórdia.

Ou da concórdia, não sei.

– “Onde está o gato?” E a menina me mostra o gato.

– “Onde está o bolo?” E a menina me mostra o bolo.

Resolvo perguntar em francês – coisa que nunca faço – pra matar minha curiosidade sobre a intimidade dela com a língua de Molière.

– “Onde está o chat (gato)?” E a menina me mostra o gato.

– “Onde está o gâteau (bolo, pronuncia-se GATÔ)” E a menina me mostra o gato.

A diversão tá só começando.

A filha que imita os pais

Momento clássico da infância é quando a(o) filha(o) começa a usar as coisas da mãe e do pai. Abre os armários, mexe nas gavetas em busca de roupas, sapatos, bolsas, bijuterias, maquiagem…

Há tanta graça na criança que borrou o próprio rosto com batom, que fica ainda menor quando engolida pela camiseta do adulto ou que tropeça tentando equilibrar-se numa sandália de salto alto (opa! Essa sou eu).

A verdade é que aqui em casa dona moça tem nos imitado muito. Aí você pensa: “ah! Que bonitinho… Já imagino Nina com os anéis da mãe nos dedos ou usando os gorros do pai”.

Quem me dera. Assim sendo, teríamos fotos melhores dos primeiros anos de vida dela. O negócio da menina é pegar o primeiro papel/pano que vir pela frente, agachar-se e mandar ver na limpeza do chão.

 

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Afinal, é só o que se faz nessa casa cheia de glamour.

O exercício do amor e o acolhimento do “exagero”

Nos últimos dias, diversos amigos e conhecidos compartilharam nas redes sociais de que participo um artigo sobre como uma tal “hiper sensibilidade” das mulheres (essas são palavras minhas, não de Yashar Ali, o autor) é algo inerente a elas e jamais algo motivado pela maneira como as tratamos, as concebemos ou como lidamos com as nossas próprias emoções. Mulheres são loucas e exageradas por natureza, suas reações emocionais a “comentários bobos” são sempre desproporcionais porque, afinal, o cara estava “só brincando”, “nem é pra tanto” (palavras minhas de novo).

Yashar Ali segue argumentando sobre o ato de “gaslaitear” (a palavra é feia e o seu significado pior ainda) e como essa atitude serve para deixar as mulheres “minadas e postas de lado”, como o autor diz no texto. Aliás, se quiser dar uma pausa para ler o artigo que menciono, esse é um bom momento. É só clicar aqui.

Mas o que isso tem a ver com maternidade? Milhões de coisas, mas eu queria me concentrar em uma especificamente.

Por motivos óbvios, me interesso por conversas que falam de feminismo, de conquistas, representações, atrasos e preconceitos que envolvem gêneros. Mas a verdade é que, há quase dois anos maternando, o assunto crianças me suga de uma forma tal que as vejo em todos os lugares. Dito isso, enquanto ia lendo o artigo citado, inconscientemente substituía a palavra “mulher” por “criança”, e vi como nesse aspecto as pensamos de maneira tão parecida.

Crianças também são “loucas”, “emotivas”, “sensíveis demais”, “descontroladas” e portanto precisam ser “domadas”, “civilizadas”. Sim, crianças são como seres das cavernas (um beijo, Dr. Karp!), com um pé na irracionalidade e com o instinto à flor da pele. É difícil lidar com isso? Opa! Claro que é. Mas quer saber? Sem demagogia? Que bom que crianças são assim: sensíveis. Que bom que elas não têm vergonha (os muito pequenos, sobretudo) de demonstrar seu descontentamento com um choro que vem da alma ou a sua alegria com um grito que gente com mais de 12 anos nem lembra mais como é que se faz.

Essas emoções genuínas são uma das caras mais marcantes da infância, mas são consideradas algo ruim, menor, feio até, e que precisam ser corrigidas a qualquer preço, incluindo palmadas, castigos e ameaças; para não falar de abusos mais doloridos. Todas essas formas de abordagem da emoção infantil – que pode aparecer como um chorinho discreto no colo da mãe ou um chilique cinematográfico no meio do shopping – só ignoram a origem da manifestação. Tendo a achar que não funcionam. Talvez momentaneamente, e só.

Pela minha própria experiência pessoal (de antes de ser mãe) e por tudo o que tenho lido e conversado sobre o exercício da maternidade consciente e comprometida, aposto minhas fichas no jargão da psicologia que diz que sentimento precisa ser acolhido. Um filho que chora é uma pessoa que expressa uma dor: seja por conta da frustração por não poder brincar naquela hora, da sensação de abandono quando os pais o deixam na creche, do susto pela picada da agulha e por aí vai. E o que fazemos com aquela dor? Adultos e experientes, sabemos que ela vai passar, que existem coisas muito mais difíceis para se lidar na vida. Sim, é verdade: depois do banho a criança vai poder brincar de novo, o pai vai voltar para pegá-la no fim do dia e a injeção leva poucos minutos para ser esquecida. Mas por que ignorar a dificuldade pela qual a criança está passando naquela hora? Por que é preferível pedir-lhe que pare de chorar ou tentar distraí-la com uma conversa fiada, ao invés de abraçá-la, dizer que entende o que ela está sentindo e que vai ajudá-la a superar aquilo?

Por que a dor do outro precisa passar rápido? Por que o sofrimento alheio nos irrita tanto? Por que pimenta nos olhos dos outros é refresco? Por que a gente não age com empatia na maior parte das vezes? Por que choro de criança é sempre birra, falta de educação, manha? Por que não temos tempo de olhar com cuidado para aquela criatura que depende de nós para aprender a lidar com os seus próprios sentimentos? Por que, caramba?!

Eu gosto de achar que choro não é algo para ser engolido, mas para ser externado e entendido. Então, o papel de quem cuida de crianças é orientá-las a respeitar aquilo tudo que se sente, seja lá o que for, colocando para fora o sentimento e refletindo sobre o que se vê. Isso é parte essencial da imensidão de significados belos e fortes por trás da palavra educar. E tem mais: se nós, a quem é atribuído o tal do amor incondicional, não somos capazes de receber nossos filhos integralmente, com seus “dramas” e “exageros”, quem será?

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

E para aquelas horas em que fico impaciente, essa frase me serve de mantra. Aqui o efeito acalentador é imediato. Ela diz, numa tradução livre: “meu filho não está me fazendo passar por um momento difícil, meu filho está tendo um momento difícil”.

Pela felicidade de se exercer a paternidade integralmente

É dia dos pais no Brasil (aqui comemora-se em junho) e eu só consigo pensar que ainda falta muito para que os homens sejam protagonistas na criação de seus filhos. Eu não tenho qualquer base científica para explicar profundamente porque as famílias ainda têm nas mães a principal (ou única) responsável por essa tarefa. Tenho minhas suspeitas, mas prefiro não falar delas nesse momento. Me limito a observar. E fico com a impressão de que haveria mais felicidade se não fosse assim.

Os homens estão lá, mas nem tanto. Nem vou entrar na seara de pais que abandonam as crianças ou os maltratam porque senão a conversa não teria fim. Eu falo de algo muito mais “leve”, corriqueiro e aceito. Falo dessas casas em que há papai-mamãe-bebê-cachorro-papagaio, mas o personagem papai é aquela figura distante, que só aparece como provedor ou o pacificador de conflitos que ele nem pôde testemunhar, bem no esquema “quando seu pai chegar, eu vou contar tudo e você vai ver só”. No máximo, o pai é aquele cara que fica olhando o bebê no berço para que a mãe possa tomar um banho rápido. Parece ser um perfil ultrapassado, mas ainda há muito homem com esse comportamento.

Todos sabemos que esse papel não é justo com as crianças nem com as mulheres, mas eu queria dizer que também não o acho justo com os homens. Ganha-se tanto nas trocas de fraldas, nos carinhos antes de dormir, na loucura que é brincar no parque, nos mergulhos no mar, no ensino do manejo da escova de dentes, no acolhimento nos momentos de mau humor e tristeza, na escolha do cardápio, nas reflexões sobre o papel da escola, na hora de desmontar o berço ou de preparar o feijão.

O pai protagonista, que, por favor, não é aquele que “me ajuda”, é o que participa da rotina da cria porque se sente responsável pela pessoa que colocou no mundo e entende que uma mãe que carrega os filhos sozinha fica exausta. Eu tendo a achar que esse pai que se preocupa em acertar, que está atento a como suas atitudes serão assimiladas pelos filhos e que entende que tudo mudou depois da chegada das crianças terá muito mais trabalho, muito menos tempo para si, mas uma sensação de dever cumprido que o preencherá profundamente.

Esse pai que se envolve verdadeiramente na vida dos pequenos está cultivando a própria felicidade, fruto da expressão diária do amor. Simples assim, como são todas as coisas complexas. Dito isso, desejo sinceramente aos homens que se permitem exercer a paternidade integralmente um dia muito feliz. Aos demais, um dia tão feliz quanto, com o bônus da reflexão sobre a força que a presença afetiva de um pai carrega.

Treta (imaginária) no parque

Dia lindo de verão, coloquei a cria no carrinho e fui passear no parque. Chegando à área destinada às crianças pequenas, avistamos uma série de pitocos remelentos se revezando entre descer na escorregadeira e comer areia.

Minha filha ama o balanço e quer testar todos. Afinal, vai que esse voa mais alto que aquele? Ficamos nesse vai-e-vem até que do outro lado do parque, uma casinha com mesa e bancos lhe faz um convite irrecusável. Chega de se balançar.

Nina sobe, então, os dois degraus que a levam ao “imóvel”, e se depara com três meninas que já brincavam por lá. Uma com pouco mais de 1 ano, outra com seus 2 anos e meio e a mais velha que deve beirar os 4. As três estão sentadas e Nina as observa de pé.

Um menino, também passado de seus 3 anos, chega gritando e tenta sentar junto delas, no que é imediatamente advertido pela mais velha: “ei, você não pode sentar aqui. Se quiser sente lá do outro lado (num banquinho isolado)”. Ele questiona sem muita força, com ares de vencido: “por que?” “Porque está chovendo e eu estou protegendo a nossa casa”.

Eu fiquei com cara de “oi? Mas o bichinho não deveria poder entrar justamente porque está chovendo?”. Mas como aquilo pareceu fazer sentido para ambos, tanto que ele sentou longe e mudo ficou, eu tentei fingir que aquele diálogo foi normal. E, não, não estava chovendo.

Menino domado, a mais velha prossegue preparando uma panqueca. Cada vez que ela abaixava para pegar areia no chão (o ingrediente das panquecas), a de 2 anos e meio desfazia tudo, aos risos. Chateada, a cozinheira dizia: “não tem graça! Pare com isso! Você não tem direito de mexer na minha comida”.

Minutos depois, o menino se mexe de leve em seu banco (sei lá, talvez tivesse entrado muita areia na roupa e ele só estava tentando espanar o fiofó), no que a menina retruca secamente: “sente aí. Fique aí”. E o menino sentou.

Depois de muito observar a cena, Nina tenta mexer nas panquecas, sendo imediatamente repreendida pela cozinheira. Para que a terceira guerra mundial não fosse deflagrada num parque infantil na pacata Montreal, eu pego areia e folhas do chão, coloco na mesa e começo a brincar com a pinduca: “vamos, filha, vamos preparar uma omelete de espinafre para todos”.

Quando começamos a preparar tudo, as duas mais velhas retrucaram: “ah! Mas ela não pode cozinhar. Aqui é a NOSSA casa! Ela só vai brincar se a gente deixar”. Ao ouvir isso, confesso que mentalmente criei um diálogo com elas no qual dizia coisas maduras tipo: “oxe! Cês tão malucas, é? Se essa casa é mesmo de vocês, cadê a escritura? Cadê??????????? Aliás, minha filha, isso aqui nem casa é. Me poupe! Isso é um parque, par-que! De modos que o espaço é público e todo mundo pode entrar a hora que quiser. E essa bosta de panqueca que você tá fazendo tá um horror. Tá queimando, cê não tá vendo? Ninguém vai querer comer essa merda aí. Aliás, isso é areia, minha filha, areia, OK? E pára com esse negócio de ficar dando ordem em todo mundo. Que saco!”

Mas aí eu lembrei que era a única adulta ali (e pior: mãe!), que deveria agir como tal e apenas fui jogar bola na grama com minha filha, que nem se importou com o despejo.